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Pensão da Solidão 6 - O refeitório das almas famintas

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Pensão da Solidão 6 - O refeitório das almas famintas


Eu e Lúcifer andamos pelos corredores escuros da Solidão,túneis tenebrosos ladeados por estátuas humanas vivas, onde um bêbado caído servia como capacho, um casal copulava como porcos selvagens e outras infrações e atentados a moral e bons costumes eram despreocupadamente perpetrados.
--Eu sei o que você é - disse Lúcifer, apontando a Carabina para o meu rosto - você é um pedófilo.
Suspitei aliviado, por um instante causara-me a impressão de que descobrira que eu era jornalista.
-- Sim, eu comercializava fotos de crianças nuas pela internet.- expliquei-lhe,obviamente mas não evidentemente mentindo.
--E rendia bem?- questionou demonstrando inrteresse comercial e desprezo pela vida humana
--Rendia,até que a polícia me pegou.- respondi em tom tristonho.
--Esses caras são foda, em vez de pegar os políticos e magnatas que fazem suruba com meninas virgens vendidas pelos próprios pais em cidades de interior ficam pegando no pé de comerciantes honestos.- retrucou o policial.
Quase cheguei a ficar chocado, mas a confusão superava o choque.Para Lúcifer quem comercializa pedofilia é honesto e os próprios colegas policiais a serviço dos poderosos praticantes de pedofilia são desonestos.
-- Sabe quanto custa um cabacinho de doze anos?-perguntou-me.
-- A última vez que vi, 10 paus.- disse-lhe,abrindo um sorriso.
-- Tá mesmo desatualizado,no interior pode ser, na capital as mães vendem por 50 paus, se a menina for bonita chega a 100.Absurdo, os preços estão pela hora da morte.- afirmou num tom preocupado.
O sangue me subia à cabeça, estava com vontade de estourar os miolos do soldado grandalhão como ele fizera com o drogado.

Vi pequenos papéis amarelados pregados em algumas portas, que traziam estranhos poemas sobre drogas:

Heroína, primamenina da morfina, alegria que se aspira pelas narinas. Do triângulo dourado para o mundo, ela é
assim:sono, sono...Heroína.Para rir à toa, para dormir em pé, para se exilar deste mundo. Para esquecer a dor, nada melhor do que dormir. Assim diziam os sábios do oriente: o melhor é não agir, e tudo se resolve por si.Heroína.De tanto dormir, um dia não se acorda mais aqui.Heroína. Como pode ter esse nome se é tão vilã?

A senhora da noite cocaína, mãe branca de todas as esquinas.Cocaína. Motivo sórdido de rompimentos e reates, motor potente das almas descrentes neste mundo sem motivo de ser, dessas razões irracionais dos jovens hormônios que rasgam a cidade à pé e em coletivos.Cocaína. Da pobreza que sobe os morros, da opulência que se esconde nos barracos a neve é o impulso; da mãe descuidada e do pai austero, o pó é a liberdade para o rebelde; das pressões no banco solitário na escola, às frustrações de um coração partido , ela é a fuga ideal para o frustrado; para aumentar libido, ou para cavalgar sem sela noite adentro, bem-vinda a branca menina companheira dos boêmios.Cocaína. Se não sabes o que fazer com um tubo de caneta, uma colher e um isqueiro, freebase!Cocaína. Ela equilibra o Bem e o Mal , os ricos e os pobres, os brancos e os negros quando corre no sangue das veias das cidades. Cocaína. A nuvem branca que anestesia e estimula tem mil caminhos para chegar às nossas almas.Cocaína. Pena que deixe um rastro de morte por onde passa...

Havia também poemas falando da maconha, do ecstasy, do skank,da morfina e do álcool.Após ler vários poemas decidi perguntar a Lúcifer do que se tratava mas fui interrompido.

--Olha, escuta bem, uma vez só.Aqui não pode estuprar ninguém, nunca e nem matar sem a minha autorização. O que quebrar e danificar, paga.X-9 morre, cagueta morre cedo,vagabundo e inadimplente vai pra rua. Drogado nos corredores, causou problema, sentença de morte instantânea.Se você se desentender com alguém, vai pra arena - que depois você vai conhecer.Transar é normal, mas se for gay não pode ser nos corredores, porque a Solidão não gosta.Se quiser pegar menina de menor, normal,mas não exagera.Nego muito sujo ou fedido leva banho de produto químico e depois é lavado com mangueira de incêndio.Entendeu?
--Sim - respondi tentando esconder o medo.
--Ótimo, já vi que vamos nos entender bem -garantiu Lúcifer e se aproximou de mim, quase colando a boina no meu rosto -diz aí, não tem uns vídinhos da hora com menina de menor?
Ignorei a pergunta e continuei sendo empurrado até um salão que parecia uma mistura de campo de concentração com abatedouro de cavalos onde um bando de homens-porcos comiam uma lavagem insalubre feita por um enorme cozinheiro negro e gordo, com um avental que deveria datar da época das Cruzadas.
Aquele lugar,uma mistura de refeitório de presidío e restaurante de albergue para mendigos era simplesmente chamado de restaurante.
Lúcifer me levou até uma mesa, onde um negro musculoso com cara de figurante de filme amaricano de presidiário me olhava com cara de assassino serial cruel de filme do tipo thriller de suspense americano classe Z.Resumindo,eu fiquei com medo dele me matar com aquele olhar mais fulminante do que um tiro da carabina do Lúcifer.Ainda era tempo de sair ainda era possível fugir, mas pensando bem, para onde?À esquerda estava a favela,à direita, o bairro dos magnatas-burgueses-oligárquicos,etc,etc, e qualquer um dos dois lugares seria perigoso demais para um homem no meu estado atual.Resolvi me socializar, porque se perdesse o meu emprego no jornal acabaria num lugar pior do que a Pensão da Solidão.Pensando bem, impossível parar num lugar pior do que a Pensão.
Sentei diante do negro, enquanto via Lúcifer ir embora gingando e girando sua carabina suja de sangue.O negão ficou parado ali, apenas me olhando com um olhar petrificante e petrificado:afinal, o cara não piscava?Estava me olhando tão fixamente e eu, tão amedrontado, que, confesso, escapou-me uma gota de urina.Tentei amenizar o clima.
--Belo dia, não...qual é o seu nome mesmo?
Sem resposta, apenas um olhar fulminante.Me senti uma menina virgem iraquina prestes a ser estuprada por um bando de soldados americanos mascarados.
--Nossa, a mobília daqui tá meio velha, não?
Os seus olhos pareciam pérolas negras, não.Pareciam olhos de tubarão prestes a me devorar.Eu era uma sardinha.Uma sardinha amedrontada.
--O rango daqui é diet, não é?Tipo, você não come ele, porque não dá mesmo pra comer, daí emagrece.
Nada, apenas o olhar e eu já estava começando a tremer de medo.Estava me sentindo como um menino pego se masturbando pela mãe.Pior, uma menina flagrada pelo próprio pai transando com o vizinho muito mais velho.
De repente, eu ouvi:
--Chegou a hora!- era uma voz de mulher, com um leve sotaque espanhol.
E eu gritei de susto, como uma criança.
-- Aaaaaah, puta que pariu!
Ao meu lado estavam Solidão, Brendaine,o Professor Ataliba e um bicho-grilo que parecia um refugo do Festival de Woodstock.Estivera eu tão absorto no olhar hipnótico do boxeador negro que não percebera a aproximação de um pequeno grupo de pessoas!
--Fada verde! - disse o negão com uma voz de trovão.Foi a primeira vez na vida que me borrei nas calças. Mas foi um pouquinho só.
Ele se levantou e foi-se, mergulhando na escuridão de um dos muitos corredores da Mansão da Solidão.Mais tarde diriam-me o seu nome:Pedro.Pedro Pedra Preta.

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