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Pensão da Solidão 8 - Escadaria Sombria para o porão

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Pensão da Solidão 8 - Escadaria Sombria para o porão


"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

Clarice Lispector
(10/12/1925 (1920?)-9/12/1977)



She's in love with herself
She likes the dark
On her milk white neck
The Devil's mark
Now it's all Hallows Eve
The moon is full
Will she trick or treat
I bet she will

She's got a date at midnight
With Nosferatu
Oh baby, Lilly Munster
Ain't got nothing on you
Well when I called her evil
She just laughed
And cast that spell on me
Boo Bitch Craft(...)

Yeah you wanna go out 'cause it's raining and blowing
You can't go out 'cause your roots are showing
Dye em black
Oh dye em black

Type O Negative, Black No. 1




Solidão o professor Ataliba e Brendaine se aproximaram.Brendaine tinha nas mãos uma garrafa com um líquido verde muito chamativo,o vasilhame tinha linhas semelhantes às curvas de uma mulher.
--Tome, é para você.-disse Brendaine com um sorriso insano.
--O que é isso?-perguntei com uma expressão insana.
--Fada Verde.Absinto.-respondeu ela de uma maneira insana.
--Ora, seu energúmeno inculto, então não sabe o que é Absinto?-atacou o professor insano.
--Sei, meu senhor mal-educado.Aceitarei a garrafa mas não tomarei essa merda.- e foi o fim da conversa insana.
Solidão percebeu a minha disposição para continuar vagando pela mansão e me advertiu,de maneira cordial:
--Cuidado ao andar pela casa à noite.Se seguir nessa direção vai ao porão,e ali não é um bom lugar para se ir,mas esteja à vontade se quiser.

Tentando fugir do refeitório das almas famintas embrenhei-me por um dos vários túneis da mansão e acabei me deparando com uma escadaria imunda iluminada por uma luz amarela deprimente.Controlando o absoluto terror que se apoderou de mim, desci aqueles degraus grudentos imaginando, teria que incinerar os meus sapatos para me livrar daquela gordura pestilenta aderida à sola.




Quando desci os últimos degraus, deparei-me com um grande corredor, largo e mal- acabado, iluminado pela mesma tênue e débil luz amarelada.E no lusco-fusco daquela verdadeira catacumba uma figura sombria veio rapidamente na minha direção, saída das trevas.O meu sangue gelou nas veias,as minhas pernas tremeram e fraquejaram.





Ingrid D`arc




Eu estava procurando por encrenca e eu a achei na escadaria sombria para o porão.Um encontro à meia-noite na escadaria enquanto lá fora uma tempestade gritava a fúria da natureza.No seu pescoço um Ankh,uma cruz ansada,o símbolo da morte, ela usava coturnos pretos e seu perfume cheirava a folhagem queimada, ou a páginas perfumadas de um livro que se deu de presente há muito tempo.

--Eu gosto da escuridão e da solidão do porão.Você não quer conhecer o porão , é bem escuro e às vezes você fica preso e não se pode sair porque as raízes das árvores ultrapassaram as paredes, estão aparecendo por toda a parte, e você acaba ficando embrenhado.- perguntou a moça,com um olhar frio por trás de olheiras sombrias.
--Deixe para a próxima vez.- respondi com segurança
--Tudo bem,então eu vou lá fora, quer vir comigo?- perguntou-me esboçando um sorriso misterioso.
--Acho melhor não,já passa da meia-noite e lá fora há um temporal.- disse já fazendo menção de ir embora daquela entrada para o inferno.
--Eu adoro tempestades noturnas, e você?-insistiu ela, apesar da minha visível indisposição para prosseguir com aquilo.
--Quer ir lá fora porque está chovendo e ventando?E ainda por cima sozinha?- questionei atônito, porque apesar do ar sombrio, se tratava de uma bela moça,bem vestida ainda que fosse para estrelar um filme de vampiros
--Eu vi você todo ensangüentado hoje.-tornou ela, mudando totalmente de assunto.
--É verdade, deve ter sido uma visão horrível , mas o sangue não era meu, felizmente.Deve ter ficado assustada?-indaguei reparando na estranha beleza da garota.Tinha um corpo muito sensual
--Não.Eu adorei.- disse ela e desapareceu nas sombras do porão.






Acredita-se que por volta de 2800 a.C., os egípcios usavam um anel para simbolizar o casamento. Dois mil anos depois, surgiu entre os gregos a crença de que um anel imantado usado no dedo anular da mão esquerda podia atrair o coração, isso pelo fato de se acreditar que neste dedo existia uma veia ligada diretamente ao coração.
As primeiras alianças eram feitas de ferro, alianças em ouro com pedras preciosas e tornaram-se moda na época Medieval.Foi em 1549 no Livro de Orações Comuns que foi designada à mão esquerda como "mão do casamento", uma tradição reconhecida até hoje em todo o mundo.


Fui ao meu quarto, e me deparei com o inevitável:a minha cama.Para tomar coragem, bebi hesitante um gole do Absinto, após me certificar da sua origem tcheca: tratava-se de bebida rara, exótica e nobre.O sabor de anis invadiu a minha garganta.Deitei na terrível cama de campanha imaginando como faria para reformar aquele quarto. Tirei uma foto daquele lugar para enviar à minha mulher.





Li no rótulo da garrafa o poema de Pedro Pedra Preta, colado precariamente:

Um gole para acordar nos sonhos, dois goles para despertar dos pesadelos.
Três goles e tu és a minha senhora, Ártemis,Fada Verde!
Acende os olhos anis da mente, caçadora dos campos do pensar.
Fada Verde, senhora dos boêmios, água esmeralda vivificante.
Um gole e esqueço tudo o que sinto. Dois goles, os símbolos pressinto.
Três goles,Fada Verde,ninfa virgem,minha vida,loucura e morte: Absinto.


Acordei no meio da noite, pois havia algo quente e úmido sobre mim.Acendi a luz, puxando uma cordinha ligada diretamente ao soquete da lâmpada, que pairava pendurada por fios desencapados da fiação exposta no teto sem acabamento.Com certeza eu teria derrubado o Absinto sobre mim, mas eu estava enganado.Deveria eu ter lembrado do que é quente úmido e viscoso.Sangue, sangue humano, o meu sangue.O dedo anular da minha mão esquerda fôra arrancado e o sangue jorrava aos borbotões empapando a minha cama.Comecei a gritar desesperadamente.O meu dedo, a minha aliança!

Era uma legítima aliança Cartier de 1924, a aliança Cartier é composta por três aros em ouro entrelaçados. O aro branco representa a amizade, o amarelo a fidelidade e o vermelho o amor.


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