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O cidadão e a cidade

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O cidadão e a cidade

Uma cidade pode ser comparada a uma selva, a um organismo, a um ser humano, a um imenso mecanismo mas poderia uma cidade ser todo um mundo? Uma urbe é um orbe quando conurba-se com outras urbes e enraíza-se na superfície do planeta como uma incomensurável floresta de raízes entrelaçadas, formando um só todo e os urbanitas são os menores elementos que formam uma urbe. As cidades são partes do mundo, painéis que formam-no como um mosaico global, como blocos de um gigantesco quebra-cabeça cujas peças são edifícios.E uma cidade é uma gigantesca maquete, um tabuleiro onde os deuses obscuros disputam um jogo com regras e objetivos desconhecidos por nós, cidadãos que não passamos de peças manipuladas num infindável tabuleiro de ruas e quarteirões. Desconhecedores deste infinito jogo de arquitetar realidades, os cidadãos transitam pelas ruas da cidade, seguindo os seus destinos como jogadores mas na realidade não passam de autômatos, marionetes tecnológicas (manipuladas por fios de fibras óticas presos aos seus cérebros) perambulando pelas avenidas de mão dupla da vida, cruzando-se nas encruzilhadas da existência, ruas que coincidem, subindo e descendo os elevadores, as escadas e ladeiras do sucesso, buscando a felicidade no mapa da cidade como fosse um tesouro enterrado. Sem saberem que o seu livre-arbítrio é limitado pelas fronteiras da cidade, a periferia praticamente está fora do jogo. Ignorantes das regras, os homens receberão os seus salários e farão as suas compras no comércio para que outros cidadãos recebam seus salários fazendo compras no comércio. O ciclo escravizante da economia capitalista, a roda da fortuna que prende os cidadãos como engrenagens do seu mecanismo continuará a rodar, prendendo-os pelos pulsos - onde estão os relógios que marcam o tempo , e pelos bolsos - onde estão as carteiras que guardam o dinheiro -, e o jogo se reiniciará diuturnamente sem que a turbamulta questione as regras ou mesmo se querem ou não continuar respeitando-as, sob pena de serem suspensos do jogo; aqueles que desrespeitam as regras e cometem infrações são "suspensos" nas prisões ou expulsos do jogo através da pena de morte em câmaras de gás. Porém o risco de um cidadão se conscientizar da real realidade é mínimo pois os sons, imagens, cheiros, gostos e texturas da poluída sinestesia urbana os manterão ocupados demais tentando processar as informações que recebem no cotidiano para que se dêem conta do seu verdadeiro papel em suas próprias vidas; e a rápida sinergia urbana de rodas rodando pelas vias ou retidas em engarrafamentos na hora do rush os deixará irritados o bastante para esquecerem de quem realmente são: seres humanos além do trânsito e do jogo do capitalismo.
Cidades são como órgãos que constituem o organismo que é o globo; as pessoas citadinas são células e as suas células são ínfimas partículas subatômicas se vistas do ponto de vista macrocósmico metropolitano . Cidadãos formam as cidades, são as células urbanas e o inverso também pode ser dito, cidades formam os cidadãos, são matrizes, os úteros de cidadãos. A cidade é movida pelas vidas a erguerem-na e a fazerem-na mover-se dia após dia; o esqueleto é de aço e concreto; fibras musculares e tendões são cabos de aço entrelaçados; cabos de fibra ótica, são nervos óticos; fios elétricos, nervos; tubulações são vasos sangüíneos; os links de rádio e televisão, olhos e ouvidos que vêem e ouvem; neurotransmissores são supercondutores; hormônios são semicondutores; a multimídia de vias digitais forma os cinco sentidos da cidade - que não funcionam sem a humanidade. E isto é verdade: quando um cidadão adoece e epidemicamente contamina os demais, as cidades adoecem,e, se as cidades adoecem, o mundo está doente.Quando o mundo espirra, furacões varrem a Terra; quando o mundo sente calafrios, a terra treme; quando o mundo sangra, vulcões implodem; quando o mundo transpira, gêiseres esguicham;quando o mundo está febril, a temperatura aumenta; quando o mundo chora, chuvas caem ; quando o mundo está triste, nuvens escuras fecham o céu azul num esgar de fúria em sua fronte; quando está alegre, o sol brilha no céu azul de um sorriso.Sim, a cidade é um gigantesco organismo, vivo, senciente, contido fora dos corpos e dentro das mentes dos cidadãos numa simbiose entre o animado o inanimado.
A cidade é uma selva de pedra cujas gigantescas árvores são edifícios de aço e vidro ; galhos são antenas e os cipós são cabos de energia ou telefone, habitats de macacos imitadores, sempre mimetizando o trabalho do outro macaco . A lei da selva urbana é o capitalismo selvagem, e em toda selva há predadores burgueses e as presas proletárias. Nas ruas os cidadãos-presas serão sardinhas lotando os ônibus no trânsito sem se questionar a razão da caçada diária por dinheiro: mata-se um leão por dia, mas um leão cobrador de impostos sobre a renda também mata todo o dia. Na fauna urbana há os homens - gatunos que pulam os muros alheios, para roubar, há os cães vira-latas que deveriam se chamar fura-sacos, sempre a comer como hienas o resto dos outros animais. Há os elefantes de rodas transitando lentamente, sempre enfileirados, e nenhum animal se arrisca a ficar no seu caminho. Há os ratos, perdidos em lixões ou em labirintos de ruas e avenidas que muitas vezes desembocam em becos-sem-saída onde as cobaias morrem observadas pelos cientistas cruéis . Há cidadãos - toupeiras abaixo da terra, ou sardinhas socadas em latas móveis , os trens do metrô. Há ricos pássaros predadores privilegiados viajando pelo alto, voando em jatos de rapina e helicópteros- libélulas que vêem a cidade como uma maquete repleta de formigas e cupins socializados trabalhando incessantemente.
Enfim um cidadão é uma cidade: as suas veias e artérias são as avenidas, rodovias por onde transita o fluxo sanguíneo - o trânsito de plaquetas e hemoglobinas atropelando-se e colidindo no trânsito do sistema vascular metropolitano. Os órgãos internos são as secretarias da prefeitura - cada uma cumprindo a sua função no organismo - comandadas pela prefeitura, o cérebro. Os seus nervos são como fios, fibras óticas e cabos elétricos;os seus olhos são as câmeras da cidade, sempre a vigiar; o seu estomago é uma usina; os seus rins são estações de tratamento;os intestinos são o aterro sanitário. A razão que norteia o cidadão que é uma cidade é a política; a sua consciência é a opinião pública; a memória, são os arquivos municipais.Todo o mundo, o mundo como um todo é formado por todos; todo mundo é um mundo, todo mundo tem um mundo dentro de si. E sendo assim, enfim, que psicólogo poderia compreender o que causa um distúrbio a uma pessoa, e levantar hipóteses a respeito de traumas se cada pessoa contém em si uma cidade e um mundo?

O Bistro do Beco,Prólogo,Gregory Grimaud.

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