Areias ao Vento
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Queria ler

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Queria ler


Eu queria ler em todas as línguas do mundo, todos os livros da Torre de Babel, e saber na ponta da língua, de cor e salteado, o sabor do acre e do doce, do quente o do frio.
Ler o livro do destino e saber da minha sorte, vida e morte e ganhar na loteria da roda da fortuna.E gostaria de receber em casa o Correio de Amanhã e saber dos acontecimentos com antecedência, e assim me alegraria antes com as boas notícias, e quanto às más tomaria alguma providência.Gostaria de ler opúsculos minúsculos no lusco-fusco de uma biblioteca esquecida, e queria ler a carta de um suicida, antes de ser escrita e evitar assim um final infeliz.E ler nas coincidências do livro da vida os sincronismos criados por Deus.
Ler no livro dos sonhos a história dos adormecidos e saber, a vida é uma ilusão, para finalmente não ter mais pesadelos quando acordar.
Ler no livro dos mortos as crônicas do além-túmulo e aprender com a vivência dos antepassados.Eu queria ler rastros e ver nas pegadas dos caminhos as trilhas daqueles que passaram.
E no livro da natureza, ler as letras de fogo, as orações da terra, os versos do ar e as crônicas da água: e, desta maneira, me harmonizar com os quatro elementos.
Queria ler na íris das pessoas, mandalas aquosas de reflexão e brilho, ver o arco que vai da saúde à doença.
Eu queria ler nos olhos da minha amada o que ela realmente sente por mim, antes que seja tarde e mais um falso amor chegue ao fim.E eu queria ler e viver um romance tal qual um manual sentimental, pois falasse tudo de bom que uma pessoa pode fazer à outra e assim prevenisse todo o mal.E quando a leitura acabasse, a moral da história fosse o perdão, invés do ódio.
E queria ler uma mulher à semelhança de uma menina, páginas em branco à procura do escritor certo para ler e escrever o livro do amor, sem paixão, sofrimento ou dor.
E queria receber e ler cartas e e-mails de todos os meus amigos, novos, futuros e antigos, e que o pombo-correio chegasse sempre, seguro sem atraso ou perigo.
E eu queria ler nas paredes de banheiros públicos versos picantes escritos com excrementos e ler o diário de uma virgem num convento escrito por um escritor mentiroso - diário de um detento tal e qual o libidinoso Marquês de Sade na Bastilha -, e eu queria ler um livro nunca escrito, por Sócrates, Buda ou Cristo.
Ler no seu e no meu DNA, na genética, de maneira a saber que genótipo de gente tem ética, se é gentil, genocida ou indigente.
E também queria ler os livros da magia, arcanos, segredos e mistérios, e desvendar os enigmas do universo para me tornar um mago bom a serviço do bem, e não o inverso.
Ler uma história sem fim, que começasse da mesma maneira que terminasse, num livro terno, que não falasse de tempo algum e assim fosse eterno.Um livro sem fim, enfim, porque falasse do infinito.
Queria ler cada oração, cada período e cada sentença e saber o sujeito e o predicado nas frases da criação divina.Ler e decorar a Torah através da cabala, conhecer o início e como tudo terminará.
Eu queria ler em cada nota de papel-moeda quanta dor e alívio causou e descobrir se o dinheiro traz felicidade ou se o contrário é verdade.
Eu queria ler de tudo, ler nas legendas de um filme, cassete, cd ou dvd, na tv, e perceber o quanto traduzir é interpretar.E queria ler na tela de um celular quanto tempo você vai demorar, se chega logo, ou se não virá.
E quando tivesse lido de tudo, mesmo com as vistas cansadas e envelhecidas, e ainda que tivesse lido até o final a linha da vida na minha mão, restaria tempo, paciência e ilusão para ler a história de uma mulher escrita no meu coração.

Dedicado a Susu Pocahontas.
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