Areias ao Vento
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O Livro dos Pesadelos

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O Livro dos Pesadelos

Não existe essa coisa de magia.
Existe essa coisa de magia.
Essa coisa de magia.
Coisa de magia.
De magia.
Magia.

O Livro da Cópula - Alan Moore


Há uma casa dentro de cada um de nós.Eu já disse isso.Eu.Já.Disse.Isso.Você já sabia disso.
Uma mansão entranhada no nosso inconsciente, com uma arquitetura interna que varia de pessoa em pessoa.Como caramujos às avessas, carregamos a mansão para onde quer que vamos.Não importa para onde ou para quantas casas você se mude, a mansão vai com você e mimetiza a aparência do seu lar.
Como ocorre com a aparência humana, a fachada não dá a menor idéia do interior.Por dentro a mansão é maior do que por fora, e nesse particular é exatamente o contrário de algumas pessoas.

Esta casa tem corredores escuros e quartos que se assemelham a câmaras. Cada câmara abriga um Eu.
Há um Eu que grita de dor, porque agulhas luminosas de sofrimento espetam seus nervos sensíveis expostos.
Há um Eu que chora porque é recém-nascido e o seu cordão umbilical de luz está ligado à fiação e tubulação imundas da casa.
E Há um Eu que gargalha da grande piada de mau-gosto da existência.

Você nunca consegue que estes Eus comensais sentem-se juntos, ao mesmo tempo, para celebrar a ceia.Jung sabia disso, ele viu isso.Nunca eles se juntam para tornar a ceia sagrada, e se tornarem D`Eus; sempre falta algum, ele está fora de casa, ocupado. Ocupado.
O culpado.

Na casa há você criança, urrando desesperadamente porque a sua Sombra o está currando, e você está gostando.Tudo lampeja e é você que está currando alguém.Pouco importa se você é homem ou mulher, bom ou mau, ali está o seu oposto e complementar.Você sabe disso, se envergonha, e quando sonha com a casa, ao acordar, quer dar o troco no sexo oposto.Isso não é verdade?

A mansão é um mosaico de todos os lugares onde você morou. Um caleidoscópio arquitetônico, castelo móbil e polimórfico, iluminado por holofotes estroboscópicos de luz negra. Cada cômodo é um setor da sua vida supostamente organizada, completamente desorganizada.A cozinha é um laboratório alquímico onde produtos químicos industrializados são combinados e transmutados em veneno para corroer, corromper suas entranhas.Romper suas entranhas. De uma maneira tão vil que a natureza não reconhecerá o seu corpo depois de morto, e você será apenas chorume poluidor.Pó, luz e dor.

A sala deveria ser um recinto sagrado, a távola uma mandala onde os sEUs poderiam operar milagres, mas é um recinto de julgamentos injustos, jogatinas e maledicência.Mal e indecência, na sala do mal-estar.
O quarto deveria ser um templo onde o ritual do amor poderia se consumar, no altar que é a cama, mas o santuário nupcial é palco do matrimônio sexual com a Besta, encenado no leito conjugal.O leite que conjura o mal é ejaculado todas as noites, sem gerar vida humana alguma.No leito conjugal a virgindade das meninas é arrancada sem amor, só com o desejo que queima os jovens por dentro, o moderno desvirginamento é um pacto ritual de sangue com a Besta.Somos todos cúmplices.

Você gostaria de fugir, de sair da casa, mas não sabe o caminho. Ou não se lembra?Para sair da casa é preciso seguir o caminho certo, quarto após quarto.Moisés sabia disso, os cabalistas sabem disso.

As portas são abertas por chaves secretas, o chaveiro está nas suas mãos, mas você é tolo e sem paciência e não consegue abrir porta alguma, está sempre preso.Os ocultistas conhecem as chaves, mas você teme, teme ser igual a eles.Teme se igualar a eles.

O chão em que você pisa está podre e range sob os seus pés, e você ouve guinchos vindos lá de baixo.Você sente medo, porque sabe que não são ratos.Os alicerces sobre os quais está construída a sua mansão são fracos.O arquiteto avisou, você não ouviu.
Você não ouviu.
Você não o viu.

E o seu i-mundo está para desabar, implodir e destruir as suas atre-vidas, cada vício irá dilacerar cada virtude e a serpente enrolada no seu cóccix irá se tornar uma cauda com uma seta na ponta.Bem-vindo ao Inferno.Bem vindo do Inferno.

Você não o viu, ele mostrou a planta da casa a você, avisou dos corredores e câmaras, que formam um labirinto de espelhos, onde você pode se perder de si mesmo.São mil imagens suas, mil vezes você:
você criança, você jovem, você homem,mulher,você grávida, você estudante, você formado,você trabalhador, você casado.
Você -você

Agora você está perdido e confuso, no labirinto de espelhos que a mamãe vaidosa espalhou pela sua casa.É impossível distinguir quem é você realmente ou o que é imagem refletida. E você teme que o seu Eu sombrio fuja do porão e o persiga pelo labirinto, se sente uma marionete, manipulada pelo titereiro cósmico, o arquiteto a guiar seus passos pelo fio perispiritual no seu umbigo, elo com a mansão. Como Dédalo, deve seguir o fio de Ariadne e fugir do minotauro no labirinto que você próprio construiu.

O porão esconde o seu irmão louco, você é louco! Tudo que você quis ocultar de si próprio, e que está escrito no Livro dos Sonhos, que é na verdade o Livro dos Pesadelos. Freud sabia disso. Freud sabia disso, saiba disso.
Você corre, sobe as escadas sem evoluir um milímetro.Cada degrau da escada é um elemento da Tabela Periódica. Você teme cair, e isso atrapalha a sua subida.Jacó disse isso.
Jacó disse isso!
Já disse isso.

É impossível subir as escadas, porque a cozinha ficou para trás, imunda, inundada, inumada, e você não transmutou direito os elementos, não realizou a alquimia interna, se alimentou das coisas erradas, carne morta decomposta, está pesado, este é o pesadelo, e o seu perispírito pesa como correntes arrastadas pela casa, como uma alma penada.Alma penada. Alma, pé, nada.

A governanta da casa é a mamãe ciência eternamente pondo as coisas em ordem, detesta pó sobre a mobília.Mamãe ciência vive dizendo para você não ouvir os gritos.Mamãe ciência vive dizendo para você não ouvir os gritos da vovó lá no sótão.Só tão.Tão só (você se sente assim, não é, na solitude a amplidão da solidão).Ela não existe mais, ela está morta.Ela é um fantasma.Ela é um sonho.Você está louco, louco.O louco do Taro, carregando o fardo de muitas vidas nas costas, mordido pelo lobo.
Se você não aceitar o que mamãe ciência diz, será expulso de casa, do colégio, despedido do emprego, desquitado do cônjuge.Terá que procurar outra casa para morar.Então você se lembra de que a minha casa tem muitas moradas. Ele disse isto. Ele desejou isto.Ele Jesus Cristo.
Então você ouve.Você ou ve.Ouve os gritos no sótão.
Da vovó.
Da vovó magia.
Magia.

Você corre, sobe as escadas de Jacó. A mamãe se agarra nas suas pernas. Ela diz, eu mostro que você está errado, número de massa, entalpia, coordenadas cartesianas e trigonometria.Eu mostro que está errado.Eu demonstro.Eu de: monstro.

Você abre a porta, a chave é um número, uma cor, uma nota musical, um perfume que você nunca esqueceu como um déjà vu ao crepúsculo no campo num dia de outono.
Lá está a vovó sentada diante do piano. E ela diz no jardim lá fora há um labirinto. No centro do labirinto está o jardineiro.
Aqui dentro no coração da casa estão as suas lembranças. As verdadeiras lembranças.O seu memento homini, o seu relicário pessoal, a pedra fundamental, seu verdadeiro Eu.Faça a sua escolha.

Se você for lá fora terá as belezas do jardim. Irá viver, ver a luz do sol, comer frutos doces como o mel.Lá fora, o sol, o mel, o dia.Se ficar aqui dentro poderá apreciar a decoração da mansão, e talvez chegue ao coração da mansão.
Quem vai lá fora vive um sonho, quem vem para dentro desperta.
Não ouça a velha magia, a magia está velha.
A magia está velha.
A velha magia.
Magia.


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