Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Cobra Norato - Raul Bopp

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Raul Bopp



Cobra Norato
(fragmentos)

I

Um dia

ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim.


Vou andando, caminhando, caminhando;

me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes.

Depois

faço puçanga de flor de tajá de lagoa

e mando chamar a Cobra Norato.


— Quero contar-te uma história:

Vamos passear naquelas ilhas decotadas?

Faz de conta que há luar.


A noite chega mansinho.

Estrelas conversam em voz baixa.


O mato já se vestiu.

Brinco então de amarrar uma fita no pescoço

e estrangulo a cobra.


Agora, sim,

me enfio nessa pele de seda elástica

e saio a correr mundo:


Vou visitar a rainha Luzia.

Quero me casar com sua filha.



— Então você tem que apagar os olhos primeiro.

O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas.

Um chão de lama rouba a força dos meus passos.


II

Começa agora a floresta cifrada.

A sombra escondeu as árvores.

Sapos beiçudos espiam no escuro.


Aqui um pedaço de mato está de castigo.

Árvorezinhas acocoram-se no charco.

Um fio de água atrasada lambe a lama.


— Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!


Agora são os rios afogados,

bebendo o caminho.

A água vai chorando afundando afundando.


Lá adiante

a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.


— Agora sim, vou ver a filha da rainha Luzia!


Mas antes tem que passar por sete portas

Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados

guardadas por um jacaré.


— Eu só quero a filha da rainha Luzia.


Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo

Tem que fazer mironga na lua nova.

Tem que beber três gotas de sangue.


— Ah, só se for da filha da rainha Luzia!

A selva imensa está com insônia.

Bocejam árvores sonolentas.

Ai, que a noite secou. A água do rio se quebrou.

Tenho que ir-me embora.


E me sumo sem rumo no fundo do mato

onde as velhas árvores grávidas cochilam.


De todos os lados me chamam:

— Onde vai, Cobra Norato?

Tenho aqui três árvorezinhas jovens, à tua espera.


— Não posso.

Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.


IV

Esta é a floresta de hálito podre,

parindo cobras.


Rios magros obrigados a trabalhar.


A correnteza arrepiada junto às margens

descasca barrancos gosmentos.


Raízes desdentadas mastigam lodo.


A água chega cansada.

Resvala devagarinho na vasa mole

com medo de cair.


A lama se amontoa.


Num estirão alagado

o charco engole a água do igarapé.


Fede...


Vento mudou de lugar.


Juntam-se léguas de mato atrás dos pântanos de aninga.

Um assobio assusta as árvores.


Silêncio se machucou.


Cai lá adiante um pedaço de pau seco:

Pum


Um berro atravessa a floresta.


Correm cipós fazendo intrigas no alto dos galhos.

Amarram as árvorezinhas contrariadas.

Chegam vozes.

Dentro do mato

pia a jurucutu.

— Não posso.

Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.


XXXII

— E agora, compadre,

eu vou de volta pro Sem-Fim.

Vou lá para as terras altas,

onde a serra se amontoa,

onde correm os rios de águas claras

em matos de molungu.

Quero levar minha noiva.

Quero estarzinho com ela

numa casa de morar,

com porta azul piquininha

pintada a lápis de cor.

Quero sentir a quentura

do seu corpo de vaivém.

Querzinho de ficar junto

quando a gente quer bem, bem;

Ficar à sombra do mato

ouvir a jurucutu,

águas que passam cantando

pra gente se espreguiçar,

E quando estivermos à espera

que a noite volte outra vez

eu hei de contar histórias

(histórias de não-dizer-nada)

escrever nomes na areia

pro vento brincar de apagar.



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