Areias ao Vento
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O coelho imortal

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O coelho imortal




Estive recentemente pensando sobre a minha relação com a escrita. Sei que algumas pessoas escrevem por orgulho, vaidade; querem ver seu nome publicado, propagado ou apenas obter respeito entre os amigos; outros querem escrever para ver uma grande foto sua na quarta capa, ganhar dinheiro tabalhando pouco, fazer muito sexo.

Eu já passei pelo trauma de ter inventado o Blade e não ter ganho nada com isso. Agora percebo a semelhança entre Matrix e o Bistrô do Beco e percebo que escrever , além de não me dar dinheiro, me leva o pouco que tenho.Na exata medida em que tempo é dinheiro.Os meus amigos riram de mim quando disse que fui o inventor do chaveiro.

Algumas pessoas apenas querem escrever porque é a melhor maneira de falar demais.

Hoje eu já obtenho algum dinheiro da escrita. Mas continuo perdendo muito, cada vez que alguém me envia uma frase ou duas e recebe em troca uma lauda.Ou quando me pede para ler um trecho de um livro escolhido ou não aleatoriamente. Sim, são estímulos.E, sim, eu respondo a eles.

Porém o ato de escrever em mim serve como um organizador de idéias. Me ajuda a filosofar, a pensar com clareza e a buscar a fonte do conhecimento e a origem das coisas. Para escrever preciso ser fisica e psiquicamente mais forte e ativo; é necessário que se melhore a memória, que se aprofunde o conhecimento, que se generalize a cultura, e que eu me mantenha informado.Na prática isto significa e acarreta um curioso círculo vicioso, no qual eu leio para escrever , escrevo, ganho alguns trocados com isso, e converto o dinheiro em novas leituras, ao adquirir livros. E, ironicamente, escrever me impede de escrever. A energia e tempo demandados para se elaborar uma monografia me impedem de elaborar um poema, por exemplo.

O eros narcisista , a energia orgônica, o chi, ki, a energia vital, sexual, criativa,telúrica, motivacional ou como quer que a chamem, aquela chama que desperta nas nossas entranhas e pode nos levar tanto a querer transar quanto a escrever realmente nasce na solidão e no silêncio. Também não posso reclamar de estar sozinho, porque, neste sentido unívoco com o ideal e a prática da escrita, tem-me sobrado inspiração para escrever. Difícil é decidir em qual momento de solidão é mais adequado tirar as mãos do meio das pernas e pousá-las sobre um teclado.

Eu não escrevo, então, por capricho ou por necessidade, tampouco se trata de ideal,vaidade ou opção.

Surpreende-me, então, que você ainda queira escrever.Sim, porque é difícil que se dê a cara a tapa sem uma razão ou impulso que seja que o justifique. Uma coisa é escrever sobre gases dispersos no vento e gazes dispersas no vento.Uma letra pode mudar tudo.E alguém menos capaz do que você poderá corrigí-lo de uma maneira impiedosa.

Aprendi confeccionando trabalhos acadêmicos que uma vírgula pode significar um ponto(na nota) e um ponto a menos pode significar um semestre a mais de estudos.Vírgulas têm o seu valor, mas eu nunca soube bem o que fazer com elas, então, normalmente as economizo.

E as vírgulas,enfim,são apenas um dos problemas do problema maior que é escrever.

Veja este texto, por exemplo.Está pobre, medíocre, impessoal. Tem uma séria crise de identidade: não sabe se é uma carta ou uma crônica. Certamente é metalinguístico mas pode estar muito aquém da idéia que quero transmitir.Não vale a pena

Enfim, muita gente se especializou em ganhar dinheiro com o que os outros escrevem porque muitos escrevem por vício e tantos outros desejam traficar drogas. E há que consuma drogas. Ou o Coelho nào seria imortal.

Mas veja o lado bom: um coelho imortal nos permite escrever!

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