Areias ao Vento
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8 - Coração de pedra

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Extirparei do seu corpo o coração de pedra e dar-lhes-ei um coração de carne (Ez 11, 19).

E Noberto viu tudo aquilo que o seu coração de pedra produziu durante a vida. Ele se viu violentando uma menina, de apenas dez anos, diante do próprio pai, um viciado endividado. E se viu matando um casal diante dos filhos: eram traficantes rivais. E o coração de Noberto, ou melhor, Norberto, já estava tão duro àquela altura que nem mesmo foi capaz de se lembrar de ter vivido drama idêntico.Também não tinha plena consciência de que se voltara para a banda do mal, do mal em sua vida; ao lado daquele que lhe tirara os pais e lhe dera uma vida de rei em troca...um rei do reino do tráfico, nas favelas; num palácio de luxo em meio ao lixo, um palácio de barracos em meio aos barracos. E Noberto se viu esquartejando os genitais de uma namorada, viva, como vingança por uma traição. E ateando fogo num jornalista intrometido, com uma técnica que era só sua; fazia a vítima beber combustível e depois ateava-lhe fogo de dentro para fora. Era o show da morte, sim, era assim que ele denominava o festim horripilante que culminava no expirar de algum pobre diabo através de alguma tortura lenta e atroz em meio ao crepitar infernal de chamas e cheiro nauseabundo de carne humana queimada. E também matou um"dotô" de uma tal "crinca" Santa Juliana "não sei das quanta" que extraiu-lhe uma bala do franco mas ligou "pros hómi". O médico foi provavelmente o que mais sofreu nas mãos de Noberto; o seu corpo foi remontado como um quebra-cabeças insano de carne e sangue: os olhos estavam no lugar das bolas e vice - versa, quando o encontraram ; o pênis saía-lhe da boca; os instestinos vazavam do ânus e pareciam ter sido usados para amarrar o pobre. A caixa craniana cortada servia como bacia onde estava um rim e o apêndice. O cérebro parecia uma almofada de alfinetes e todos os dentes haviam sido arrancados. Nunca se soube se algum outro médico ajudou Noberto a empreender a tortura, ou se a própria vítima foi obrigada a explicar ao assassino os procedimentos que não seriam mortais. E a sétima vítima de Noberto foi um policial que não aceitava propina e acabou crucificado na entrada do morro.
Lentamente as chamas infernais começaram a baixar, mais e mais, até que Noberto percebeu que não se tratavam de chamas, mas eram luzes de velas, velas numa mesa, uma mesa de Natal! Mas antes que as chamas baixassem por completo, Noberto viu a figura do seu pai, aparecendo lentamente por trás da parede de fogo que os separava, no momento da morte, e pela primeira vez pôde entender o que ele dizia:
-- Feliz Natal, meu filho. Faça o bem e se lembre de mim com alegria neste dia.
Lágrimas banhavam as faces de ébano de Noberto. Elas se transformaram num mar de choro quando ele viu o seu pai encabeçando uma mesa natalina onde os comensais eram o casal morto, a menina violentada, o jornalista imolado, o policial crucificado, a namorada esquartejada e o médico destruído pela tortura cirúrgica.
Ele quis gritar que eram eles os responsáveis por sua condenação ao inferno, mas diante do perdão ele se calou.
-- Feliz Natal, meu filho. Faça o bem e se lembre de mim com alegria neste dia.

Sete perdões para o pecador, sete golpes para destruir um coração de pedra.

Bradou uma voz na escuridão.E a escuridão se calou em silêncio fumegante de chamas apagadas por lágrimas.

Sete golpes para destruir um coração de pedra.

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