Sábado, Dezembro 21, 2002

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Silêncio.
Veja tudo, ouça tudo, mas não fale nada.
A palavra é o tropeço dos tolos, o silêncio é a arma dos sábios.
Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.
Nem tudo o que parece inanimado é sem vida. Nem todos os mudos são incapazes de falar.
Nem tudo o que parece silencioso é sem eco. Nem todos os trovões podem ser ouvidos.
O jogo da morte contém sete erros, o inteligente os reconhecerá. O sábio não os apontará.
A família educa, a escola ensina, o templo guia,a rua corrompe, a polícia prende, a justiça julga, a prisão contém.
O caminho do crime leva ao beco do castigo...


Noberto no inferno


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Noberto Figueira demorou para perceber o que estava acontecendo. Ficou ali no cemitério com a massa encefálica espalhada pelo chão, e um globo ocular ejetado, justamente onde a bala entrou.
Quando levou o tiro, ele cambaleou e caiu sobre o próprio caixão, onde teoricamente deveria estar. As pessoas correram desesperadas e num instante estavam sós, ele e o padre assassino.
Era a hora do crepúsculo e o cemitério tingira-se de uma tonalidade rubro e dourado.
Noberto chingava o padre de todos os nomes, de nenhum nome. Ele parecia não ouvir palavra do que Noberto dizia.
Em verdade, o padre não mais via Noberto mas Noberto ouvia sussurros vindo de algum lugar, de lugar algum. Talvez fossem as pessoas do enterro, escondidas entre as lápides e os mausoléus.
Súbito, um gato preto cruzou o caminho de Noberto Figuera. O felino virou-se, olhou para Figuera e pareceu sorrir; os olhos do bichano infernal tinham um brilho dourado como o do crepúsculo e Figuera arrepiou-se por inteiro.
A situação de Noberto era horripilante. Acompanhou o gato com os olhos e simplesmente o viu sentar-se sobre um corpo caído. Noberto ainda não percebera que aquele corpo desengonçado jogado sobre o caixão era o seu corpo. Os cegos demoram a conhecer a verdade, mesmo assim , de alguma maneira, Noberto Figuera sabia o nome do gato que o atormentava: o gato que ri.
Tentou se segurar, mas logo num instante chingava o gato de todos os nomes, de nenhum nome.
Então uma voz gritou dentro da cabeça de Noberto:
-- Silêncio.
-- Veja tudo, ouça tudo, mas não fale nada.
-- A palavra é o tropeço dos tolos, o silêncio é a arma dos sábios.
-- Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.
-- Nem tudo o que parece inanimado é sem vida. Nem todos os mudos são incapazes de falar.
-- Nem tudo o que parece silencioso é sem eco. Nem todos os trovões podem ser ouvidos.
-- A família educa, a escola ensina, o templo guia,a rua corrompe, a polícia prende, a justiça julga, a prisão contém.
-- O caminho do crime leva ao beco do castigo.
Eram as estátuas, que criaram vida e fizeram um círculo em volta de Noberto. Ele já passara por isso várias vezes na sua vida, esta era a primeira vez na morte: um julgamento.
As estátuas tinham aparência de mulheres, virgens imaculadas,anjos e pequenos querubins inocentes. As palavras de uma pareciam se encaixar na de outra, como um jogral de mármore.
-- Noberto Figueira cometeu sete erros em vida.
-- O jogo da morte contém sete erros, o inteligente os reconhecerá. O sábio não os apontará.
-- Noberto errou porque acreditou que tinha o coração de pedra.
-- Por isso, será julgado por estátuas sem sentimentos.
-- Figueira errou por acreditar que tinha os nervos de aço.
-- Por isso somente o aço poderá livrá-lo dos grilhões que lhe tolhem.
-- Noberto falhou em crer que sua cabeça era dura demais.
-- Assim, uma bala lhe atravessou o encéfalo.
-- Figueira achava em vida que tinha estômago forte .
-- Veremos na morte quantos sapos pode engolir.
-- Noberto dizia que o seu sangue era quente.
-- Descobrirá que a lava e o enxofre são mais.
-- Figueira dizia que tinha a língua ferina.
-- Mas a palavra é o tropeço dos tolos e na língua bífida das serpentes há mais veneno.
-- Noberto creu que tinha fôlego de gato, ainda que detestasse os felinos.
-- De maneira que um gato sorridente o guiará pelos caminhos do crime no castigo do inferno
Então uma das estátuas, com aparência de mulher - usando um vestido longo, trazendo na mão esquerda uma espada e na direita uma ampulheta - sentenciou:
-- O júri dos mortos condena Noberto figueira a expiar os seus erros no inferno.
Noberto começou a gritar histericamente:
-- Putaquepariu, caralho! Eu não vou pro inferno, eu não vou pro inferno!
Mas uma voz conhecida disse:
-- Você já está nele, porque ele está em você.

Quinta-feira, Dezembro 19, 2002

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Noberto no cemitério

Quarta-feira, Dezembro 18, 2002

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No cemitério



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Norberto ria-se muito da situação. Assistir ao próprio enterro era algo cômico. E o melhor é que ele nem havia planejado; algum incompetente do IML atestara a sua morte após a matança no Carandiru.
Ele nem reparou que do outro lado do seu túmulo havia outro e que um enterro acontecia simultaneamente ao seu falso despedir-se. Enterros simultâneos.
O sol estava quase para se pôr, quando uma voz surgiu ao seu lado:

-- Foi o que eu disse: a morte não o levaria tão fácil.
Era o Profeta.


-- Vá para o inferno, Profeta. Se contar para alguém que eu estou vivo, morre!
-- Repare nas frases que constrói, amigo. O mesmo faz com a sua vida. Corrompe a escuridão com luz e apaga a luminosidade com trevas.
-- Já disse, vai pro inferno com seus enigmas da puta que te pariu, velho viado.
-- Eu vou para o inferno, mas você vai antes, Noberto...

Mal acabou a frase, Noberto pode ouvir as ultimas palavras do padre...
-- memento, homo, quia pulvis es et in pulvere reverteris...
E o clérigo retirou de sob a batina uma arma e atirou na cabeça de Noberto.

O Profeta sorriu e disse:
-- É a primeira pessoa na história a morrer no próprio enterro!

E gargalhou indo na direção do sol poente

Domingo, Dezembro 15, 2002

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Tempestade de Areia: Interlúdio Pegasus

Através da areia escaldante, dunas e pirâmides espreitam o florescer de novas savanas...Beduinos atravessam confiantes o imenso deserto, porque sabem que não existe caminho incerto para as verdadeiras caravanas....

Um dia no calor do deserto, um príncipe árabe perdido, pensando estar abandonado e esquecido, claudicou e adormeceu entre as dunas...
Ele sonhou e repassou fortunas, conquistas e amores
E quando a Morte se aproximava, sentiu um calafrio diferente, vindo da imensidão, vindo do interminável vazio...
A tempestade de areia cegou momentaneamente a esperança, mas uma brisa soprou de repente na mente, mudando toda a sorte...
Vinda no Norte,gerou um Oasis,depois surgiu uma Savana e um tropel bendito e salvador de uma eterna Caravana
Na frente de sete dromedários, um sheik de negro brincando com as cores primárias, conduzindo os anjos beduinos...
E o reluzir e tocar de sinos...
E o príncipe não sucumbiu, Luzes na Tempestade de Areia, ele ainda viu..


Seria um milagre no deserto??? um pégaso branco se aproximou: um cavalo selvagem, gerando Asas entre a realidade e a miragem...
E o Príncipe voou e voou..
Alçou sonhos de mil e uma noites, dobrou miranetes de Bagdá, Louvou Alá, ultrapassou tapetes mágicos, venceu a Morte e derrotou inimigos invisíveis, os mais terríveis, os mais vis...
E o pégaso, Pegasus.. uma Constelação Formou,Brilhou o cavalo real árabe que cavalgou... cavalgou...

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O presídio
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Noberto Figueira conheceu o presídio como quem acorda de um sonho e se descobre num pesadelo.
Ele ainda podia ouvir o ecoar do martelo "Culpado", no tribunal enquanto raspavam -lhe a cabeça. Carandiru era o nome da embaixada do inferno na terra.
Trancafiado numa cela com trinta e seis outros criminosos, Noberto acordou aquela noite sentindo um ardor no ânus. Havia um peso sobre ele. Era outro presidiário. Noberto estava sendo currado.
Quando amanheceu o dia, o zelador em sua ronda matinal horrorizou-se ao ver trinta e seis corpos amontoados sem vida e Noberto dormindo como um bebê.
Os dez homens da tropa de choque receberam um membro viril, que Norberto atirou logo que invadiram a sua cela.
E foi assim que a fama de Noberto se espalhou, até que ele se tornou um dos homens do maior traficante do Brasil, preso ali mesmo no Carandiru.
Uma cela especial, como se ele fosse diplomado, visitas sexuais de modelos e atrizes da tv. Mesmo assim, Noberto não estava satisfeito. Ele escrevia o seu Livro dos Dias com sangue, drogas e morte . O diário de um detento.
Durante a estada de Figueira no Carandiru, a passagem mais estranha foi o dia em que o Profeta o chamou à noite para conversar.
O homem conhecido como o Profeta era um velho negro cego que mofava numa cela especial com duas carrancas nas grades. Diziam que a sua cela ficava trancada não para impedir que o Profeta fugisse, mas para evitar que algum criminoso vil ali entrasse e o matasse durante a calada da noite. Segundo alguns, naquela época a pena do Profeta estava expirada havia dez anos e ele permanecia ali para observar o que acontecia no Carandiru.
Ele acendeu os lampiões que tinha autorização para usar quando recebia visitas e disse:

-- Você carrega a morte consigo. E só sairá daqui morto.
-- Ora, seu velho...
-- Calma, Figueira. Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.

E, dizendo isso, o Profeta apontou a parede oposta da cela. Noberto pegou o seu lampião e foi até a parede indicada pelo velho e ali, viu escrito na pedra:

Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enchergar.

Só naquele instante Norberto viu as gravações em todas as paredes, no teto e no chão da cela do Profeta; inscrições em baixo - relevo de tudo o que o velho ouvia e sabia no Carandiru.

-- Este é o Livro dos Mortos do Carandiru, Figueira. Em breve o seu nome estará nele, mas tal é a sua sina que até dos mortos seu nome será apagado.
-- Vá pro inferno, velho louco - gritou Norberto e se foi.
Ele não ouviu o velho dizer :
-- Estamos a um passo dele, amigo. E lá nos encontraremos.
E, em seguida, apagou os lampiões.

Na semana seguinte, Noberto ficou sabendo de um plano, uma chacina que fariam no pavilhão nove para mascarar a morte de alguns cabeças do tráfico, rivais.Ele arquitetou um plano, que só uma mente criminosa e perturbada poderia conceber.Logo que as chamas, as balas, os gritos, os latidos dos cães se acalmaram, Noberto foi até a pilha de cadáveres.Com um estilete ele pegou um dos corpos e começou a mutilá-lo como um açogueiro insano.

Horas depois, 110 corpos saiam em peruas do IML diante dos parentes, curiosos e da imprensa atônita.
Um dos corpos chamava muito a atenção, por estar tão retalhado que espalhava seus pedaços conforme era transportado.
Este morto abriu um dos olhos para dar uma última olhada no seu lar de tantos anos e viu o velho observando da janela de sua cela e sorrindo. As palavras Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enchergar, faziam tanto sentido que um calafrio percorreu a sua espinha.

O massacre no Carandiru