Alea jacta est ou morituri te salutant
A sorte está lançada, ou saúdo os que irão morrer. Usava=se nas arenas romanas, mas é adequado aos hospitais públicos brasileiros
Sábado, Setembro 21, 2002
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Alea jacta est ou morituri te salutant |
Quarta-feira, Setembro 18, 2002
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Bestiário Mínimo |
Bestiário Mínimo
I. corvos
Vírgulas suspensas
entre ciprestes.
II. grilos
Já se calaram há muito
mas o seu canto ficou a pairar
sobre a seara, dentro da cabeça.
III. salmões
O rio original, espécie de útero,
chama por eles. E eles voltam.
IV. rãs
Vivem na margem do lago,
à espera de uma fábula ou
de um verso japonês.
José Mário Silva, Nuvens & Labirintos, Gótica
Terça-feira, Setembro 17, 2002
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Sabe qual é o paradoxo de se trabalhar numa biblioteca? Catalogar os artigos de todas as principais revistas brasileiras e não poder ler pausadamente nenhuma delas...carregar um livro de cada uma das áreas do conhecimento humano sabendo que o meu tempo e dinheiro nunca serão suficientes para ler todas os livros que desejo.Passar metade do dia na internet imprimindo índices de palavras-chave da Biblioteca nacional e não pode atualizar o meu blog.É este paradoxo que denomino labirinto: perder-se em meio às estantes de uma biblioteca, perder-se em meio às escolhas das palavras a se utilizar.
Domingo, Setembro 15, 2002
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Quando morei no Japão
Descobri que um ano pode se multiplicar por cinco, pois o que importa não é o relógio da parede ou o do pulso, mas o relógio do coração e o da memória. E que antes estar acompanhado do que só.
Quando morei no Japão, descobri que lá eu era analfabeto e que palavras poderiam ferir como espadas mesmo (e principalmente) quando não entendidas. Lá aprendi que não importam as línguas dos homens, e sim a língua universal do pensamento. Viajando para o Japão, percebi que a principal bagagem que carregamos é aquilo que somos e sabemos, e não o que temos e detemos. Indo ao Japão, descobri o meu elo com os ciganos : e, com o elo, a lição de que devemos juntar somente aquilo que somos capazes de carregar numa mala.
E foi na terra do sol nascente que descobri que parte do que eu sou é uma ponte sobre um velho rio.
E que uma semana pode ser dourada ; fogos de artifício são hanabi; camarão é eibi, mas sakana não é o que se pode imaginar, e sim peixe; e, principalmente: bozo não é um palhaço, mas um careca.
Lá descobri que os cães ladram e a caravana passa, que macacos caem da árvore, e que se tarda não falha.
Ali no leste aprendi com um ancião que pouco importa o quanto o chão lá fora trema, o importante é não tremermos por dentro.
E aprendi que se você for capaz de copiar algo, fazendo-o menor, ficará rico. E os semelhantes têm diferenças entre si, bem como os diferentes guardam semelhanças mútuas.
Há pessoas capazes de comer camarões vivos, e lulas com cabeça, mas são tão acanhadas que fingem dormir nos trens para não encarar ninguém.
Entendi que tudo tem o seu preço - especialmente o sexo - mas a felicidade é tão cara que é impossível calcular o seu valor. E o quanto custa então aqueles que amamos ...?
No Japão descobri até onde pode ir a tecnologia o trabalho e a ganância. A Terra é redonda, este mundo, pequeno; mas paredes são quadradas e se perdem no infinito de um apartamento.
E a solidão é a saudade, a ausência e falta de contato humano: saudade é a nostalgia de estar junto aos entes queridos : e a nostalgia é a falta que faz a pátria-mãe.