Sexta-feira, Agosto 02, 2002

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Mentiroso é a mãe



A todos aqueles - vocês - que me acham mentiroso, o meu vai à merda! A todos aqueles - vocês - que acham que podem mentir diante dos meus olhos e sairem impunes, eu peço que retornem à merda de onde saíram. Remetam-se à grande mãe fossa, seus filhos da puta. Continuem lendo isto, se vocês tiverem coragem, seus cíbalos putrefactos hediondos, escória maldita da geração perdida! À todos vocês gays, com problemas de aceitação materna e falta de um modelo paterno à seguir, à vocês sedentos de porra e de dar o cu, vão à merda, comam merda, porcos antropófagos. À vocês sapatões que acham que seus braços chegarão perto dos 48 e que a sua massa pode alcançar os 98 kg, ( e ainda que o consigam) eu afirmo: eu tenho algo pendurado aqui que c ontinua deixando todas as lésbicas do mundo em desvantajosa desigualdade: lésbicas do mundo, vão à merda!
Você que é uma garota bonita e acha que para alguém penetrar você tem que ter este ou aquele nível socioeconômico, mas que me fitam de soslaio sexual sequioso : merda é a sua vida, merda é você e a sua mãe - que te ensinou a ser assim - e as suas falsas amigas, que são assim, e os merdas dos playboys que andam com você e que se cagam de mdo das minhas palavras e punho. Ah, e merda é o idiota do seu pai que foi enganado pela puta da sua mãe, outra merda interesseira.
A todos vocês que poluem o mundo, devem engolir tudo o que os outros têm de bom, e devem ficar quietos, porque eu consigo me salvar e salvar à vocês, mas vocês são incapazes de salvar a si mesmos. Nadam num esgoto escuro de merda que chamam de realidade, trepando sem parar, fumando, bebendo, comendo, reclamando da vida, mas não sabem o que é o esforço.
A todos os gays e mulheres feias que querem me dar: vão à merda. Aos falsos mestres: vão à merda. Aos verdaderos mestres: limpem esse mundo imundo! Aos garotões que se acham mais fortes do que eu porque se entopem de bomba, vêm me pegar. Aos faixas -preta de merda, seus merdas: pega eu! Aos falsos PHDs : vamos discutir!
Eu sou aquele que esteve do outro lado do mundo, aquele que arriscou a vida por homens e animais mais dignos do que muitos homens. Aquele que fez justiça, que lutou pelos pobres, por igualdade, saúde, inteligência. Eu sou o fiel traído, o amor perdido, o talento desperdiçado, sou o banido, sou o odiado...e sabem por que(?/: )vocês têm um filho de tanto medo que sentem de mim! Ou seja, se cagam de medo! Eu sou o excluído porque estou entre os melhores mas não me vendi, como vocês fizeram!
Mesmo se eu ficasse a vida inteira sem tomar banho, ainda estaria mais limpo que vocês. Mentiroso?É a mãe, a sua. Aos que afirmam que eu escrevo para desabafar, como terapia para as minhas neuroses, esse texto é a resposta que me encomendaram. Eu sou aquele que escreve livros, que luta e ergue pesos, que quebra corações e caras, e que já teve a cara e o coração quebrados mil vezes. Eu sou o ganhador que perdeu; eu sou a verdade que se expressa não apenas através das palavras mentirosas, mas dos sentimentos verdadeiros. Eu sou o que viveu três décadas mas que aparenta menos do que você, dondoca que já deu por três vidas e você menininho mimado e cagão que não aguenta nem a si mesmo e acha que um mês bombando na academia ou fazendo jijjijiji fuck you podem torná-lo adversário para mim. Eu sou descendente direto daqueles que desenvolveram o que vocês praticam. Eu sou um dos que elaboram as teorias que vocês estudam penosamente para tentar lograr êxito nos exames. A vocês que estudam e moraram no exterior e se autoproclamam senhores poliglotas do saber: eu os venço com um ano de estudo, aqui mesmo, sem gastar, sem ninguem bancar. As suas línguas cheiram à merda convencida.
Aquelas que apenas me vêem como uma mina de ouro ambulante: vão à merda. Aqueles que têm medo, eu os perseguirei nos seus pesadelos!
Aos católicos e evangéliquinhos: Cristo se casou; Maria, a mãe, não era virgem. O catolicismo é o mal deste mundo e os seus cismas , metástases do câncer mal-curado da Inquisição, que apresentou recidiva!A verdadeira fé é em Cristo mas não somente... e mentirosa, é a Bíblia, mãe dos livros!

Fiquem com Deus, obrigado por serem medíocres e por fazerem de mim tão grande!

Quinta-feira, Agosto 01, 2002

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o último dia do resto da minha vida



Era o ultimo dia, do resto da minha vida antiga - transitando para uma renovação do antigo - cedendo lugar para as habituais reviravoltas absurdas e absolutas que semestralmente tornam a minha existencia tão imprevisivel quanto o resultado da loteria. Acabávamos de apresentar o trabalho na faculdade e estávamos ligeiramente sujos de talco.Está bem, sem eufemismos: estávamos brancos. Me limpei,e, como uma barata, procurei um canto escuro onde pudesse ficar sozinho... e ela apareceu. Estava indo embora com as amigas e me perguntou se eu estava chorando. Como eu não estivesse, respondi que não me abato fácil. Ela tocou em mim, aquela ação que as belas pessoas não deveriam fazer com os seus admiradores esperando consolar. Ela arrasou comigo naquele instante, porque vi na sua beleza tudo o que gostaria mas não poderia ter.Ainda mais numa ocasião em que o buraco negro que me persegue ameaçava me engolir novamente, jogando a mim e à minha vida, no mínimo, do outro lado da cidade. Bem, a imprevisibilidade do velho Greguinho pode simplesmente significar estabilidade e continuo no mesmo lugar. E ela? Onde estára, aonde terá ido?

Quarta-feira, Julho 31, 2002

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Filosofias chinesas




Na minha vida, sempre senti falta do verdadeiro mestre, aquele que aparece do nada. Mas como dizem, quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.Enquanto o mestre não vem, procuro imaginar que há um sábio chinês ao meu lado, mais ou menos como um assinstente do word. O mestre poderia ser japonês, já que eu sou neto de um nipônico. Mas é melhor que seja chinês, afinal.


De uma pequena semente , nasce uma grande árvore .

Se voce se dá mais valor do que tem, perde o seu valor.

O ontem não pode se encontrar com o amanhã, mas o hoje pode.

Um dia uma velha tropeçou e caiu. No outro, também.Depois, ficou jovem.

O jovem crê que a velhice não chegará, da mesma maneira que o velho acha que a juventude não regressará.

O cego não ve aquilo em que acredita, mas quem não acredita no que vê é mais cego.

Os amigos nos ajudam. E se nós somos amigos, ajudamos também.

Ninguém está sozinho quando tem companhia, ninguém está ausente quando se faz presente, e nenhuma pessoa é esquecida quando é lembrada.Mas está morto em vida aquele que não cultiva a esperança.

Olá é uma benção dos amigos; adeus é uma benção dos inimigos.

O homem e a mulher se encaixam como a porca e o parafuso. Com eles, é possível construir muita coisa.

Um sussuro se torna grito ao pé do ouvido.

Não reclame se alguém o olhar muito: se você está vendo, é porque está olhando também.

Para o andarilho, houve um tropeço numa pedra. Para a pedra, o andarilho a chutou.

Nunca diga pelas costas de uma pessoa aquilo que não é capaz de falar cara a cara: a pessoa pode estar ouvindo atrás da porta.

Terça-feira, Julho 30, 2002

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Motel palácio I

Motel palácio I



A rádio na madrugada deixa de tocar rock para tocar música de motel.
Alarmes soam ao longe... na rua, uma viatura da polícia. E eu não posso dormir, eu só fico aqui, eu fico só aqui. Só aqui.
Pego algumas fitas cassetes. Modelo ultrapassado, a forma superada. Mas não o que elas têm a dizer. Algo em comum comigo?
Palavras ditas, inauditas, ecoam na memória. Coincidem com a música que toca,

Ela me pergunta: "se você é tão esperto, porque não é médico? e eu respondo "porque sou esperto".
Numa roda de amigos, eu provoco:" já fui ao motel mais vezes que todos aqui juntos".Eles duvidam, eu explico que trabalhei sete meses num motel.

Bocas que se beijam são bocas que se calam. Olhos então se fecham e nada vêem: o amor cega a razão. As mãos se entrelaçam como que querendo soldar a relação; mãos dadas não trabalham, nada escrevem. Somente as musas distantes inspiram .

Ela arrumou um emprego e não me deu endereço. Eu apareço lá, do nada, de onde vim. O nada que eu sou para ela. "Como você me descobriu aqui?". "Da mesma maneira que descobri as suas omissões e mentiras" foi a resposta que engoli mas não dei.

Corpos que se movem fazendo amor não se locomovem. Vem e vão, vão em vão. Para um lugar que nunca chegam porque nunca saíram do lugar.

Eles me dizem que o passado dela é sujo, e que fotos comprovam os seus erros. Eu respondo que a única mulher confiável é aquela que sabemos não ser.

O calendário é um triste lembrete de que as contas vencem mensalmente. Elas nos vencem mensalmente.E no fim das contas, só haverão contas.

Eu esqueço do aniversário dela. Ela não me perdoa. Nem eu. O que ela não sabe é que eu esqueço do dela, assim como do meu. E afinal de contas, o que importa não é quando, mas se você se lembra. Aniversários são contas que vencem anualmente e eu estou sempre em débito.

Traições são ações mentirosas. Tentativas de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tempo perdido, quando há flagrante.

É uma madrugada chuvosa, estou defronte ao prédio dela. A princesa trazida numa carruagem: o carro de Hermes mostrando a mim toda a verdade sobre a vida. Atrevida!
Ela diz que nunca atrapalharei o seu novo romance. Mas caminhadas deixam rastros: ponho a mão no interior da bolsa aberta e um cartão indica o caminho até o caçador que virou caça.

O tempo passa, a noite avança. Quem espera a noite passar sozinho, sempre alcança um amanhecer triste.

Ela me diz que se não a quero, é porque não sou homem. Eu respondo que, para ela, então realmente eu não sou homem.

Baladas na madrugada, letras insensatas rimando sem métrica como fundo inspirador para casais no fundo do poço desesperador do sexo, num motel feito para ser um palácio à beira da estrada ,onde eu gerencio sozinho as minhas lembranças.

Domingo, Julho 28, 2002

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O Livro dos Mortos 12

O Livro dos Mortos 12

O mundo dividido II




-- Neste mundo dividido, nem tudo é perdido, porque há a humanidade pura e livre da contaminação tecnológica, vivendo num verdadeiro paraíso terrestre, sobrevivendo da natureza. Esta humanidade, Aedevael, conseguiu restabelecer o antigo equilíbrio. Caminhou por antigas trilhas, restaurando a fé e a esperança outrora perdidas; restaurou a unidade familiar, a fidelidade conjugal, a igualdade social, a fraternidade humana e a liberdade do cidadão. Tudo isso graças ao fim da indústria e a derrocada do modelo universal de desigualdade nela fundamentado, o capitalismo.Nesta nova sociedade humana, impera o socialismo de troca: ao mesmo tempo há moeda , distribuição de renda e comunismo. As doenças foram abolidas, a fome inexiste, a guerra não tem motivo de ser e a morte vem quando pede a natureza. Esta humanidade sente pena da humanidade escravizada pela tecnologia. O que sempre quis dizer é aquilo que está dentro, a mensagem da fé, da esperança e do amor - a mensagem que está escondida na arca do coração, aquela que não pode ser aberta.

-- E o primeiro ataque contra a indefesa humanidade de jardineiros é desferido. Os robôs - caçadores remotamente pilotados, RCRP, avançam nesta noite escura. O seus faróis são vistos pelas crianças, que correm acreditando serem as máquinas voadoras algum brinquedo feito pelos adultos. Alguns são mortos por laser, outros por microondas descargas elétricas e variados instrumentais de matança acoplados aos robôs. Para aqueles que tinham esperança, veio o desespero; para os que tinham fé, veio a descrença; onde havia amor, surgiu o ódio. A segunda investida dos robôs é contra as moradias: sem abrigo, virá a doença, pois o frio do inverno é implacável; a terceira investida é contra as plantações, porque se faltar alimento na estação da colheita, terão que recorrer aos estoques. Mas o ultimo ataque afeta os estoques,e, sem eles, a fome é inevitável. Com o clangor do aço da guerra, somado ao frio que gela ossos e traz a doença, e a escassez de alimentos que acarreta a fome, a morte fez-se presente. Os robôs retiraram-se, retornando ao metroplexo urbano bionet. Porém , a sensomídia constatou que o sucesso do programa foi sem precedentes, entretendo os neturbanitas de uma maneira tão plena que se decidiu agir de maneira diferente: um novo plano, secreto, foi traçado.

-- Os poucos sobreviventes Aedevael tornaram-se nômades itinerantes , vagando carregando a sua arca do coração. Sem fé no futuro e nos frutos de Deus na sua caminhada, mantiveram a esperança nos dias melhores; mas desesperados pela desgraça, mantiveram a fé não em dias melhores, mas nas lembranças do passado glorioso. Aqueles que amavam os que foram levados pela guerra resultada em morte, alimentavam-se de ódio e venciam a fome. Os doentes sobrepujavam a peste ajudados pelos sãos.
A maioria clamava por guerra, não apenas por vingança, mas porque intuiam que o inimigo voltaria a atacar.

-- E o plano dos neturbanitas foi posto em prática: robôs voadores espalham nanorobôs que funcionam como esporos virais. O vírus? Bionet. Os Aedevael afetados pelos esporos se tornarão netbiótipos como os neturbanitas que lhes levou a a guerra, a peste,a fome e a morte. Crescerá um bionetálamo nos que estiverem sadios; os famintos serão alimentados artificialmente, quando o vírus alterar o seu organismo; os doentes serão curados por anticorpos artificiais ; os moribundos se erguerão. Assim, o vírus devolverá a esperança aos que estiverem desesperançosos, e a fé aos descrentes...então o ódio se transformará num amor frio como aço à consciência net. E estes se voltarão contra o seu mestre e guia que se chama...

-- Motrick. E o vírus se espalha, um gene dominante artificial. O vírus net age alterando o ADN dos seres humanos normais orgânicos. Adaptando os organismos para captarem metais, criando células que funcionam como biochips e transformando humanos em autômatos. O problema é que a mutação mata 90% dos hospedeiros e a sucessão de gerações que garantiria a sobrevivência dos Aedevael está comprometida.

-- Assim os Aedavael têm que enfrentar uma nova ameaça, originada no seio do seu próprio grupo : os traidores contaminados pelos vírus. Os Aedavael lutam contra os Aedevael até que restam somente dois guerreiros: Motrick e um autômato. Motrick tenta a todo o custo guardar a arca do coração, mas está velho e o autômato a toma deixando Motrick em prantos para trás. Entusiasmados os telespectadores assistiam ao desfecho da trama. O autômato guerreito leva a arca como o ultimo prêmio, como o símbolo da supremacia do tecnológico sobre o orgânico. A arca é levada ao conselho e aberta diante de todos, seguros de que ali não havia nenhuma ameaça . A hipótese se confirma, apenas se encontram ali algumas lâminas de madeira com caracterres rudimentares gravados. Para as máquinas, tratava-se de uma cruptografia rudimentar e bastaria processá-la para que os neturbanitas pudessem se rir dos evangelhos dos Aedavael. Logo que a grande matriz termina a decodificação, três imagens se formam: e um texto surge:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.
Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
o amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.
A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.
Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.
Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor - as três virtudes. Porém, a maior delas é o amor.


Então surge agora a imagem de três planetas, o mundo de sal que foi destruído pelo desespero; o mundo das libélulas, salvo pela fé; e o mundo dividido. Este. Este cuja salvação é o amor. Aparece a imagem de Motrick, afetado pelo vírus da bionet, mas que não deixou-se levar pelas máquinas. E aqueles humanos que tanto apreciaram a guerra que viram pelos visores sensomídia descobriram-se admirando Motrick e querendo seguir o seu caminho de fé, esperança e amor. E Motrick à partir desse dia foi eleito o novo líder da parcela humana do planeta, e de nada adiantaria matá-lo ou fazer a guerra, porque tantos aderiram à sua causa que as máquinas descobriram que a dureza do aço cede e se quebra diante da flexibilidade do amor orgânico.

-- Eu venci.

O Demônio grita e se converte num vórtice de chamas, dor e pestilência, varrendo todas as almas sofredoras do inferno.

Eu vejo as palavras que eu disse ecoando perdidas no inferno expressando o que em vida vi e li, provei e falei, o que ouvi e senti e com a minha mão escrevi: como uma carta, a quem interessar possa, dobrada como avião de papel: palavras esvoaçando como as areias do tempo ou como uma mensagem numa garrafa. Uma mensagem lançada no mar infinito e que eu próprio encontrei: fé, amor e esperança.Palavras escoando da ampulheta quebrada, do tempo que se foi na minha vida.Palavras flutuando no éter vazio e silencioso : as três bolhas de sabão contendo os mundos que criei, como ingênuos devaneios infantis que se foram.Dissolvendo-se agora nas chamas infernais como castelos construídos no ar .Confundindo-se em labirintos de palavras,de gritos e lamúrias infernais, como Areias ao Vento...
Caso o Demônio quisesse aproveitar estes três mundos que me forçou a criar e publicar como história, ele teria perdido tudo ao banhar o inferno com as chamas do seu ódio. Então. um estalo: era isso que ele pretendia, e agora só o que restou dos três mundos é o que posso contar aqui, um pálido reflexo do que realmente ocorreu. Resta a mim um último ato de coragem e provocação:
-- Não olhe agora, mas você acabou de destruir os tr6es mundos que criamos
-- Nãaaoaoaoaoao! - grita o Demîonio, comprovando que o seu plano de fingir que era vencido por mim fôra frustrado pelo próprio ódio demoníaco que arde como chamas do âmago do seu ser: mesmo tento previsto que seria derrotado por mim e planejando aproveitar os planetas que criamos em nosso confronto para publicá-los como um livro, condenando-me ao inferno posteriormente, o demônio deixa-se levar pelo ódio e destruiu os mundos e os seus próprio planos.
-- Vá embora daqui, Patrick Berlinck. Mas se acha que vai feliz, resta a mim uma última vingança: você irá embora de ônibus.

Algo contorce agora em minh'alma, ouço alguém gemer com uma voz assustadora e gutural:
-- Nãoooaoaoao! - e demoro para perceber que se trata da minha própria voz.


Entrei neste ônibus vermelho e preto, cujo número da linha é D-666 circular infeno. O motorista só existe da cintura para cima, assim fica impossível entender como ele pode acionar os pedais. A frente do ônibus, normalmente reservada aos idosos, tem as seguintes figuras: um garoto débil-mental com um caderninho de anotações onde ele anota as placas das lojas que vão passando. Atrás dele, na cadeira dupla defronte à catraca, está um único cara gordo que ocupa os dois assetos.Ele está comendo algo gorduroso com um creme pardo, mas não consigo identificar o que é. Do outro lado, um sujeito todo enfaixado geme de dor gritando "Maldito hospital público que não aceita internação, assim vou morrer!". Um senhor idoso conversa com o motorista; "é, rapaz, do jeito que essa previdência demora a pagar, só vou receber essa aposentadoria depois de morto"e o motorista responde "e olhe lá". A catraca marca um número impossível de passageiros, o cobrador tem a cabeça perfurada por um tiro, provavelmente de bazuca porque o buraco é tão grande que não se vê o rosto, mas se lê; menores de 6 anos não pagam.Pergunto quanto é a passagem, ele responde "1 real" e gero uma nota no valor pedido...só agora olheo melhor o ônibus...que se estede até onde a vista pode alcançar. Se o onibus termina eu não sei, mas ele te inúmeras divisões ligadas entre si como uma sanfona...várias portasd e algumas escadas que levam a um pavimento superior de onde vêm mais gemidos e murmúrios de desespero . E vejo agora aquele cara das cobranças união, mortinho da silva com um papel qualquer na mão. Ele não me reconhece, mas eu sei agora que ele morreu sem receber de mim. Talvez esse ônibus infernal seja a mistura de tudo de ruim que já aconteceu com pessoas em coletivos urbanos, e todas as pessoas com as quais as coisas ruins aconteceram. E pelo visto, estas pessoas são em parte as que morreram em ônibus e outra parte são aquelas que não sabem que morreram. Eu não preciso perguntar a ninguém qual é o ponto final desse ônibus, porque sei que ele é o ponto final: o coletivo da morte, um circular que nunca sai do circulo vicioso.Resta a saída de emergência, achar a ortodomia, a linhareta que liga este lugar ao mundo dos vivos, mas espere, estou ouvindo agora:

Nasci da união da mãe beleza e do pai força.
Eu sou a beleza da força.
Fui batizado no fogo das paixões.
Na crisma confirmei a minha fé no vento.
Comunguei no ar que sopra o espírito
Como as folhas secas das árvores, a minha eucaristia.
Confessei as montanhas os meus pecados
E descobri com o eco: as montanhas pecam como eu!
Assim ordenei-me o Sacerdote dos Ventos
Que agitam as águas e formam ondas,
Que levam as terras das planícies, e então
Selei o meu matrimônio com elas:
O casamento das areias com o vento
Que fez de mim - um grão - algo;
Eu sou grão de areia levado pelo vento.
O vento passou, como o tempo.
O vento fustigou a força do rochedo
(fez dele grãos de areia).
O tempo enrugou a beleza
(e fez dela velhice).
O vento, semeado em tempestade,
Ministrou a extrema-unção, e se foi.
Devolvendo-me para o infinito de grãos da praia
(Na praia, no tudo) o grão se converte em nada...


Sim, sim, é um sussurro melódico...palavras entoadas, o meu epitáfio. Secretamente esse epitáfio é uma invocação, para eu retornar. Um túnel de luz abre-se diante de mim e posso ver Rael Is chorando por mim. Obrigado, Rael, você disse que iria até o inferno atrás de mim, se preciso, mas mal sabe que me tirou do inferno.

Estou retornando agora, o meu corpo não está no cemitério. Estou cercado por sete homens que tentam reverter quimicamente os efeitos da fórmula do ziumbi que apliquei em mim mesmo: baiacu, sapos, aranhas, plantas venenosas...uma receita que aprendi e quis testar em mim. Esta formula, utilizada no Haiti, é produtora de zumbis: pessoas que ficam em estado catatônico e depois são despertas pelo sacerdote que as envenenou, que as convece que são escravas. E eu fui loco de aplicar isso em mim!
Os setes homens me observam acordar, me deixam na porta de um hospital público. No meu bolso, o telefone de um amigo: Spab. Alguém liga para ele, enquanto sou atendido pelo Doutor Al, outro amigo e uma enfermeira de rosto familiar mas que não consigo reconhecer, mas que sei que também é uma amiga.Fui deixado no lugar certo: os meus amigos não sabem, mas são eles que tornam possível que eu viva. Aparece Beck, gritando e dando ordens, Bulaxa com a cara assustada, até o Marcelo estava ali.

E foi assim, que eu, Gregory Grimaud, renascido do inferno, retornei ao por mãos ocultas e à vida, pela graça das amizades que aqui cultivo.