Sexta-feira, Junho 14, 2002

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Adeus mundo cruel; a Deus mundo cru...



Por que continuar indefinidamente esta vida até o seu desfecho natural se ela só promete - a quem tem a mínima visão da realidade - dor, sofrimento e dor? Eu já procurei a verdade na minha família, e logo cedo vi que não me bastava. Então busquei disciplinar o meu corpo e mente, busquei mergulhar dentro de mim, busquei Deus em todos os lugares nos recônditos do meu ser. E nada encontrei além do vazio de experiência que naturalmente se encontra num garoto e um profundo medo - que encontramos dentro de todos os seres, especialmente naqueles seguros de si e bem estabelecidos. Eu pratiquei Yoga por sete anos da minha vida, sendo vegetariano e,externamente, motivo de chacotas enquanto dentro da disciplina as obras aconselham a se desistir da empreitada espiritual na ausência de um guru que o conduza. Assim eu fiz, porque na minha vida a ausência de mestres e de quem admirar sempre foi um problema. E creio que seja um probelema do nosso século também. De maneira que passei a ser estranhado e ridicularizado dentro e fora daquele meio onde procurei uma explicação para o sofrimento deste mundo. Então eu busquei novas teorias nos livros enquanto permanecia escondido e esquecido nos cantos da escola. Ali mesmo eu buscava respostas e alento nos quadrinhos e em Júlio Verne, porque Ficção Científica era uma paixão grata na mesma medida que a realidade científica era ingrata. Evidentemente que comecei à acumular conhecimento, o que era de se esperar, mas como se sabe, o acúmulo de conhecimentos nada significa de bom porque a humanidade acumulou conhecimento mas não sabe como utilizá-lo para se salvar. E este era o meu problema, encontrar uma filosofia e uma prática espiritual que oferecesse resultados neste mundo sem me excluir dele como um santo esperando receber algo em outra vida enquanto me privava de tudo e todos, deixando espaço para aqueles que queriam realmente viver essa vida se preocupando com o inferno somente na outra: os pecadores. Aos dezoito anos abandonei o vegetarianismo e a postura espiritualizada, e, como já estivesse no ambiente de academias, trabalhei o meu físico para ficar e aparentar mais forte, livrando-me finalmente de certos estigmas e traumas da infância, como os apelidos e as agressões. Eu tinha uma namorada, falsos amigos que tinham e gostavam de exercer algumas facetas perigosas do poder e bons amigos verdadeiros com os quais simplesmente gostava de sair e beber. Mas à ninguém eu podia ou queria revelar a minha sede por conhecimento, verdade e transcendência , uma voracidade por respostas às questões que fustigavam o meu pensamento. Naquela época eu era um estranho e belo garoto surpreendente trajando um sobretudo e andando - a maioria das vezes sozinho pelas ruas de sampa. Auxiliei e salvei muita gente nesta época, nas ruas. Um dia uma cigana me parou, eu estava bem vestido, usando jeans, botas e uma jaqueta de couro. Não obstante ela adivinhou, quem sabe por acaso, quem sabe por outro motivo, que eu não tinha profissão definida. E isto era e ainda é uma verdade na minha existência; o capitalismo não me legou nenhuma tipificação social, não tenho profissão, não tenho rótulos, sou como O Louco do Tarô. A minha aparência e o meu curriculum vitae já causou muitos arrepios e dúvidas nas pessoas; simplesmente porque eu mudo como a lua muda de fases; e o meu corpo é todo marcado por estrias devido à isso. Assim, eu sou forçado - apesar de ter um porte físico privilegiado e adorar musculação - a esconder as marcas e cicatrizes da transformação e da instabilidade do meu corpo. Apesar da boa aparencia há algo no meu rosto que transmite o horror existencial que eu vivo, e há o signo da loucura, da dissolução da personalidade que causa um infinita dúvida em todos a começar por mim. Eu busquei tipos como eu na filosofia, e ali não encontrei respostas além da historicidade de fracassos sistemáticos da busca pela verdade; fracassos como os meus, os seus, os nossos. Desta(ou daquela) maneira estruturei uma forma básica de pensar, de falar, de agir, de viver que me norteou na busca mas que por si só não trouxe respostas. Apenas criei um padrão definido para esta indefinição entre corpo e estética, mente e filosofia, ciência e transcendência que marca minha existência. Isto me tornou conhecido e respeitado por alguns, odiado e despeitado por outros ( e outras). E é este o problema, quando quis buscar respostas nos outros, descobri que é difícil encontrar aqueles que estão por trás dos livros que tanto me ajudaram, atrapalharam, instigaram; na vida concreta do cotidiano as pessaoas são e estão perdidas, sem sentir e sem sentido, desesperadas, afoitas, desinteressadas e interesseiras . Elas só despertam em mim o desejo de ficar sozinho, de encontrar alguém como eu em alguma parte. Ou em parte alguma ; qualquer possibilidade, ou sem possibilidade; encontrar nada em lugar algum; não encontrar ninguém em lugar nenhum, etc. Então a filosofia não fornecia respostas, assim como as religiões; o ocultismo já era um caminho trilhado havia algum tempo, mas eu sabia que coexistia ali uma mistura entre verdades e mentiras, declarada e anunciada pelo próprio ocultismo, enquanto manifestação teórica da luta entre o bem/verdade e o mal/mentira. Novamente eu me deparava com aquele princípio inenarrável de que a verdade está dentro de cada um; e como ela, a verdade, é uma dama sorrateira e mutável; quando Isis é desvelada trata-se de uma coisa tão individual que permanece oculta dentro de cada um. Compreendi que nisto consistia o ocultismo e cheguei à várias conclusões maravilhosas sobre a trama de ilusões que forma a realidade. Não compreendi porque não morri naquele momento se havia decoberto todos os segredos do universo. Talvez eu estivesse errado e a alternação provocada pela leitura sucessiva de dezenas de livros esotéricos, de mitologia e religião, tivesse operado uma lavagem cerebral em mim. Percebi simultaneamente que buscar a verdade - o conhecimento - era uma paixão pathos, assim como a busca pelo amor. Acreditar e buscar o saber - filosofar - é amar a sabedoria ; da mesma maneira que acreditar e buscar o amor é amar o romance. E também percebi, dolorosamente, que o mesmo conflito entre bem e mal, verdade e mentira, presentes na busca do saber se transferia para a relação homem mulher - que é uma evolução cancerígena, uma metástase cerebral da relação macho/fêmea. Percebi que o meu conhecimento e desespero que o meu poder e fraqueza, que a minha autoridade e servidão, funcionavam da mesma maneira com o saber e com o ser. Passei por traumas amorosos que me fizeram perder a crença no casamento capitalista, no matrimônio católico mas não na união espiritual. Da mesma maneira, as decepções filosóficas me fizeram desacreditar da religião proibitiva, da filosofia histórica, da ciência descrente mas não do conhecimento transcendente. Por fim, hoje resta-me o suicídio; mas eu explico, isto não significa morrer ou me fazer ou deixar morrer. E sim, não lutar a favor do capitalismo, da filosofia, da religião, do matrimônio, tampouco contra. Evidentemente quem não reage à nada está morto, não? Pois eu não reajo à mais nada espontaneamente, de onde se conclui que eu me suicidei. Adeus mundo de ilusões: o mundo onde a morte da princeza Diana foi mais importante do que o massacre de milhões, um mundo de nobreza e miséria . O mundo em que o caso de um presidente com uma estagiária foi mascarado com uma guerra . Um mundo em que um país sujeita todos os outros países do mundo, enfim um mundo todo dividido em países. Um mundo de truques, blefes, ilusões e roubos, de usurpações, violações,tortura estupro e morte. De falsos messias em tubos catódicos de melodias e imagens veiculadas para vender necessidades de vender mais à milhões e bilhões de famintos por coisa nenhuma. De histerismo e fúria mimetizada, de realidade ditada pelo poder que domina a mídia, de genocídios ocultos por escândalos e de escândalos ocultos por genocídios; de censura invisível; de libertinagem visível; de monstros necrófilos disputando o poder para saciar a fome de sexo nu e cru, fome de comida, fome de poder, fome de dor, fome de fome.

Quarta-feira, Junho 12, 2002

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O Livro dos Mortos


Eu lamento muito informar que hoje quem escreve estas palavras não é Gregory, mas a mãe de Grimaud. O motivo é o esperado: ele se suicidou, e, como último desejo, pede a todos que divulguem as suas últimas palavras, que publicarei à partir de amanhã aqui mesmo, anexando a elas as minhas impressões após o choque inicial. Juntamente com a carta de suicídio, será divulgada a fotografia do meu pobre filho morto, e ela estará disponível para ampla divulgação. Sem mais:

Magdaleyne Grimaud, mãe de Gregory Grimaud

Terça-feira, Junho 11, 2002

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O Livro dos Sonhos



Eu sonho com uma casa que esconde um altar, às vezes no porão,às vezes no sótão. A casa sou eu, o altar é a fé, às vezes no meu porão (instintos) às vezes no meu sótão (razão, intuição,inconsciente). A teimosia em crer que este sonho seja algo recente esbarra nos meus sonhos reincidentes infantis sobre a minha casa e o palhaço do mal que nela habitava.Este palhaço era anterior à qualquer referência cinematográfica, apesar de ter unhas bem compridas, dentes de tubarão, e eventualmente aparecer com duas assistentes, duas meninas negras decapitadas que carregavam as cabeças sob os braços. Às vezes o palhaço ficava no seu lar: o quadro que o representava, e que, realmente, no mundo real, ficava na sala de casa. Nestas circustâncias em que estava emoldurado, ele gostava de nos acompanhar com seus olhos, as íris brancas contra o humor aquoso negro como a morte.Muito semelhante à um filme de terror barato, mas até um filme barato projetado no seu inconsciente onírico causa pânico.A figura ameaçadora do quadro e do palhaço nele retratado por um artista, um tal de Pangella, perseguiu a mim e ao meu irmão nos meus sonhos e nos sonhos dele - segundo uma conversa que tivemos já adultos, o meu irmão confirmou ter sonhado as mesmas coisas que eu durante toda a infância -, sem nunca termos revelado nada a ninguém sobre os pesadelos. Enfim, com o início da idade adulta, ou talvez de uma adolescência caminhando para o adulto, eu enfrentei o miserável e ele nunca mais perturbou os meus sonhos. O meu irmão afirma o mesmo. Quando nos mudamos aqui para a legendária Terra Fértil, onde agora residimos, consegui persuadir( ajudado pelos argumentos enfáticos do meu irmão à favor)a nossa mãe a dar o quadro à nossa tia. Agora o palhaço de garras compridas e dentes de tubarão vai atormentar os sonhos nossos sobrinhos lá em São Paulo. E resta uma dúvida no ar: será que um dia os meus sobrinhos crescerão e pedirão para a mãe se livrar do quadro, dando-o para outra família que tenha crianças?


A entrada de Batman no Asilo Arkhan: uma casa normal para pessoas normais
Uma séria casa num sério mundo



Segunda-feira, Junho 10, 2002

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O Livro do Destino



Como podemos carregar o fado das nossas vidas se tudo já estava traçado desde o início dos tempos? Se tudo começa com uma explosão e termina com uma explosão, se viemos de um vazio escuro e sabemos que a ele voltaremos.Os alfarrábios de Kardec dizem que temos o livre-arbítrio,mas estamos presos ao carma de vidas passadas enquanto os opúsculos carcomidos do conhecimento oculto dizem que existe um traçado maior na nossa vida ,que tudo está predestinado,mas nós escrevemos o subtexto da nossa existência.

Começamos como fetos e terminaremos como defuntos. No intervalo entre um horror e outro há só uma eterna antecipação (da morte) que e uma interminável rememoração( do nascimento); num dos extremos há a possibilidade não-realizada do aborto( a vida interrompida prematuramente) e noutro a potencialidade da eutanásia ( a vida terminando antecipadamente). Mas uma das coisas não aconteceu, e a outra pode não acontecer, então seria melhor que nos preocupássemos com a vida e com o destino que nos mantém acorrentados a ela. Sem razões profundas para o existir do nossso ser, sem nada a fazer ou missão à cumprir além do sobreviver. O sobreviver significa apenas resistir vivo ao sofrimento, e nada além disso. Nada de buscar verdades a respeito de si mesmo, dos outros, das coisas, animais e do universo. Nada além do nada. E é este nada o mal herdado do século XX pelo século XXI. O nada que atira (n)as pessoas ao sexo vazio, à solidão das drogas ao suicídio coletivo


Domingo, Junho 09, 2002

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O Livro dos Dias, do Destino, dos Sonhos e da Morte


O Livro dos Dias é um diário. Nós que escrevemos esses diários virtuais conhecemos bem as dificuldades e os prazeres de escrever as nossas efemérides no espaço virtual da Internet.Os blogueiros nunca sabemos onde está o limite entre o particular e o público; entre segredos e boatos.As nossas palavras são jogadas ao vento como aviões de papel, lançadas ao mar de milhares de diários e weblogs como uma mensagem na garrafa: não sabemos quem irá encontrá-la. Por vezes, os nossos dizeres e afazeres se perdem no inferno enfermo, no espaço de palavras vazias da Internet; ou no tempo escasso dos visitantes que vêm - e vão - a nós com as horas contadas, correndo contra as areias do tempo escasso de suas vidas atribuladas. A liturgia das horas,e dos dias na internet é ditada por um grande íncubo que só fomenta o sexo; a Igreja da Libido é o maior sucesso da rede: todos procuram sexo, tudo é sexo mas ninguém se excita lendo você. O deus-calendário é um mega aglomerado de feriados e dias santificados, de diversão, resorts, flats, e parques temáticos virtuais: e ninguém se diverte lendo sobre você. A Vênus midiática rebola as suas ancas seduzindo os internautas com notícias comestíveis, copuláveis, uma concupiscência digital, uma orgia num mundo de novidades: a sua vida não é notícia, então ninguém noticia você ou o seu blog.Enfim, se você não falar de sexo, de notícias e de diversão, ninguém lerá o seu diário porque a sua vida não importa a ninguém além de você mesmo.E olhe lá.

No Livro dos Mortos , às vezes, a sua vida não importa nem para você mesmo. Se este é o seu caso , você é um suicida em potencial , e deve seguir um importante conselho meu: escreva uma carta de suicídio e mande publicarem postumamente no seu weblog que a sua morte se tornará um fenômeno de visitação. No Livro dos Mortos que é o entretenimento brasileiro, Cazuza, Raul Seixas, Getúlio Vargas e Jim Morrisson fazem mais sucesso mortos do que vivos. No século XIX e início do XX costumava-se fazer o Livro dos Mortos - fotografar as pessoas falecidas como se vivas, para que descansassem em paz: mais uma boa idéia, fotografar-se depois de morto para conseguir público. Afinal, o público brasileiro tem algo em comum com os urubus e hienas, não pode sentir o odor de carne apodrecendo que fica logo faminto. Ninguém se interessa pela sua vida ou pelos seus sonhos, porque a sua existência concorre com a dos outros, no mercado de trabalho, no mercado do sexo, no mercado da sobrevivência.Nota importante: isto é uma metáfora, não uma sugestão de suicídio; pense bem. Memento Mori: não é preciso se matar a si mesmo, todos inevitavelmente morreremos um dia.

O Livro dos Sonhos é mais do que uma obra freudiana. Passamos 1/3 das nossas vidas dormindo entre o sono e os sonhos. Uma pessoa com 28 anos de idade terá passado 9,33 anos de sono sonhando 4 sonhos por noite, isto é, escrevendo um livro com 13.621 sonhos esquecidos muito além de Freud, Jung, Adler, Reich...e que os índios Senóis da Malásia sabem como ninguém utilizar. Se você narrar os seus sonhos no seu diário, ninguém quererá ler. Porém, se forem pesadelos talvez o público carniceiro venha arrancar nacos do seu sofrimento.

O Livro do Destino é aquele em que se escreve o que ainda não aconteceu mas que provavelmente acontecerá, porque assim estava escrito e assim se cumprirá. Maktub.É o livro dos prognósticos dos seus dias, o seu horóscopo: aquelas previsões coletivas e massisficadas que tratam-no como um ser não-individualizado com um signo zodiacal tatuado na alma. E, na verdade, penso que não somos nada além desse aglomerado de ninguéns sem rosto na multidão. O livro do seu planejamento, do seu calendário de afazeres, da agenda é o Livro do seu Destino. Nele, você escreve hoje o que fará amanhã, e pode também escrever comparando o seu dia com as previsões do horóscopo. Lembrando-se sempre que você só será lido por exemplo, se estiver vivendo com os dias contados em fase terminal de alguma doença incurável ou coisa que o valha : as pessoas adoram o cheiro de necrose penicilina e formol a que recendem as últimas palavras e desejos de um moribundo. Se você for um detento, O Diário de Um Detento vende bem a idéia de miséria humana, mas isso todos já sabiam.E vende mais se você estiver no corredor da morte