Sexta-feira, Março 29, 2002

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A fábula do gatinho solitário


Era uma vez ontem à noite, quando fui buscar a minha avó na sua casa, que ficava bem ao lado da nossa e havia na rua um gatinho - de pêlos "amarelados", ligeiramente rajados de branco e olhos castanhos claros - miando tristemente para o vazio escuro da noite e então voltando o seu lamento para nós. Parecia um pedido de socorro, parecia um choro da mais profunda tristeza. A minha avó explicou a mim e à minha irmã que ele era um integrante da dupla de gatinhos que ela alimentava; mas o outro, o branquinho, desaparecera um dia ou noite dessas e não mais voltou; e por serem mãe e filho, o filhote chorava a falta da mãe. Chorava de abandono e solidão e pedia aos outros que tentaseem encontrá-la para ele.

Afinal, humanos e animais não são tão diferentes assim: os nossos dramas são os mesmos.

28/03/02

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A vovó dos suspiros


Era uma noite outonal no terminal central de ônibus municipal. E lá estava ela, segurando um cesto de vime envernizado com uma proteção na alça para não machucar os braços delicados curtidos pelos anos. Ela vestia um vestidinho roxo com motivos florais, calçava sandálias que deixavam à mostra pequenos pezinhos com unhas estragadas e usava um lenço escuro na cabeça para que os seus poucos cabelos esbranquiçados não caíssem sobre o delicado produto artesanal que ela vendia; suspiros em saquinhos plásticos transparentes ornados com fitinhas coloridas. Eu olhei bem para aquela senhora, uma velhinha de mais de oitenta anos segurando aquele cesto gigantesco e a examinei; ela tinha uma corcova enorme, era corcunda, e eu não podia saber se era um resultado natural da idade ou o peso do que carregara ao longo dos anos que gerara a deformidade. Cada saquinho daqueles custava o mesmo do que uma viagem nos sujos sucateados e decadentes ônibus municipais , dinheiro empregado sabe lá de que maneira por sabe Deus quem e com que finalidade...
Eu olhei bem para o seu rosto por um instante e as barreiras de sexo, idade e individualidade foram por terra e pude me ver com oitenta e poucos anos e me sentir num terminal de ônibus quase à meia-noite vendendo suspiros.
Uma moça deve ter pensado ou sentido o mesmo que eu porque perguntou o preço das iguarias, mas não houve tempo, nem para ela nem para mim fazermos ou dizermos mais nada: o sombrio ônibus chegou e nós embarcamos observados pelos olhos tristes da velhinha que perdeu a chance de vender os ultimos suspiros do longo dia de trabalho...


Aquela senhora não apenas vendia os suspiros: ela os gerava... bastava olhá-la.

Quarta-feira, Março 27, 2002

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Espera!-Gonçalves Dias

Espera!
Gonçalves Dias







Quem há no mundo que aflições não passe,

Que dores são suporte?

Mais ou menos d'angústias cabe a todos,

A todos cabe a morte.





A vida é um fio negro d'amarguras

E de longo sofrer;

Semelha a noite; mas fagueiros sonhos

Podem de noite haver.





Por que então maldiremos este mundo

E a vida que vivemos,

Se nos tornamos do Senhor mais dignos,

Quando mais dor sofremos?





Quantos cabelos temos, ele o sabe;

Ele pode contar

As folhas que há no bosque, os grãos d'areia

Que sustentam o mar.





Como pois não será ele conosco

No dia da aflição?

Como não há de computar as dores

Do nosso coração?





Como há de ver-nos, sem piedade, o rosto

Coberto d'amargura;

Ele, senhor e pai, conforto e guia

Da humana criatura?





Se o vento sopra, se se move a terra,

Se iroso o mar flutua;

Se o sol rutila, se as estrelas brilham,

Se gira a branca lua;





Deus o quis, Deus que mede a intensidade

Da dor e da alegria,

Que cada ser comporta — num momento

D'arroubo ou d'agonia!





Embora pois a nossa vida corra

Alheia da ventura!

Além da terra há céus, e Deus protege

A toda criatura!





Viajor perdido na floresta à noite,

Assim vago na vida;

Mas sinto a voz que me dirige os passos

E a luz que me convida.



Terça-feira, Março 26, 2002

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Seven - David Bowie


Seven
David Bowie

"I forgot what my father said
I forgot what he said
I forgot what my mother said
As we layed on your bed
A city full of flowers
A city full of rain
I got seven days to live my life
or seven ways to die

I forgot what my brother said
I forgot what he said
I don't regret anything at all
I remember how he wept
On a bridge of violent people
I was small enough to cry
I got seven days to live my life
or seven ways to die

Hold my face before you
Still my trembling heart
Seven days to live my life
or seven ways to die

The Gods forgot they made me
So I forgot them to
I listen to their shadows
I play among their graves
My heart is never broken
My patience never tried
I got seven days to live my life
or seven ways to die

Seven days to live my life
or saven ways to die

Seven
Seven
Seven"


Segunda-feira, Março 25, 2002

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Saudades de São Paulo

Eu vejo nas ruas de São Paulo uma gentarada apressada, aglomerando-se de vez em quando diante de um corpo atropelado com fraturas expostas numa poça de sangue. Casais entrando em motéis baratos, pardieiros sitos em ruas de paralelepípedos catingando à mijo e merda, vizinhos de botecos e bibocas, ninhos de baratas, pulgas, carrapatos e percevejos, as paredes pichadas e cortadas por gambiarras de fios emaranhados aonde vão pivetes com os corpos cobertos de piercings, fechados por tatuagens tribais, marcados por cicatrizes de picos nas veias e também obesos mórbidos e magros esqueléticos, e velhos ranzinzas em busca de um baque pesado.Ruas degradadas, vidas desregradas desgraçadas, vira-latas sarnentos e vagabundos dormindo embaixo de pontes arrastando-se em túneis e meliantes trancados em celas, fugitivos escondendo-se em becos.
Prostitutas nordestinas vítimas do destino seminuas emperequetadas de bijuterias coloridas fazendo ponto numa zona da Augusta. Vielas escuras, covis de tarados em meio ao entulho e restos em putrefação quiçá alguma carcaça de algo morto entre dois cortiços envoltos em alambrados e arames farpados tomados por cupins e de paredes rachadas e pinturas mofadas com infiltrações, defronte aos quais latões de lixo eventualmente abrigam um feto abortado ou recém-nascido rejeitado por sua mãe miserável ou uma puta que o pariu e nem viu, de tão dopada numa fossa ou cisterna num barraco de favela na marginal de um córrego destes que cruzam a paulicéia, poluídos por rejeitos tóxicos desta ou daquela indústria química periférica tocada por operários químicos periféricos. Praças tomadas por camelôs vendendo quinquilharias hippie, apetrechos e bugigangas esotéricas típicas e garrafadas medicinais com ervas curativas. Mendigos bêbados maltrapilhos em andrajos fedegosos portando canecas de metal com moedas a mendigar em camas feitas de papelão diante das galerias de pequenas lojas vendendo futilidades supérfluas num bairro chique.

Ah, a falta que faz São Paulo ...