A lógica da paixão
Por que ela? Por que ele? O encontro amoroso não acontece por acaso. Entenda as razões que o próprio coração, às vezes, desconhece
Maria Fernanda Vomero, da Superinteressante Especial
Como Rick e Ilsa, os eternos amantes do filme Casablanca interpretados por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, a paixão não escolhe horário e muito menos dia para chegar. Como ocorre você já sabe. Um olhar, um sorriso, umas palavras banais. E pronto! O planeta pára de rodar, o cotidiano cinzento se torna um conto de fadas colorido. Mas o mistério permanece: por que, entre 6 bilhões de terráqueos, você foi se encantar justo por aquela pessoa?
Para muitos apaixonados, o encontro amoroso é o fruto de uma coincidência espantosa. Alguns vêem nele a mão do destino, o poder dos astros. Nada disso, acreditam os cientistas que há décadas tentam desvendar as tais razões do coração. Os resultados dessas pesquisas já permitem afirmar que a paixão tem lógica uma lógica própria, que nem os próprios enamorados conhecem e que nem sempre combina com o bom senso convencional.
Agora, novos estudos lançam mais luz sobre esse terreno vital para a felicidade de cada um. Os pesquisadores descobriram que a beleza faz diferença, sim, mas não é tão fundamental quanto sugeriu o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980). Essa é a conclusão que se pode tirar da pesquisa feita pela psicóloga americana Pamela Regan com 72 estudantes da Universidade da Califórnia.
Os jovens apontaram as características desejáveis num parceiro para uma noite de sexo e, em seguida, os traços que preferiam para um relacionamento durável. No primeiro caso, a atração física foi destacada como atributo principal. Já na escolha de um companheiro de longo prazo, os estudantes valorizaram a simpatia e a gentileza mais do que a beleza física.
P.S.:PROVAVELMENTE ESSES CIENTISTAS ESTUDARAM DEMAIS E SE APAIXONARAM MUITO POUCO,PARA REDUZIR A PAIXÃO A ISSO.
Sábado, Março 23, 2002
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A lógica da paixão |
Sexta-feira, Março 22, 2002
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Problemas coletivos
Eu gostaria de falar sobre tudo o que vejo e sinto nas ruas diariamente; dos menores cheirando cola, das pedintes segurando bebês nos braços, das inúmeras festas populares brasileiras que mascaram interesses políticos escusos, dos políticos que vomitam baboseiras utópicas, das meninas vendendo balas em pequenas caixas nos semáforos, dos ricos engolindo os pobres com a sua falácia e línguas de tamanduás, das mulheres carregando fardos nas suas cabeças, dos carroceiros puxando com as próprias mãos caçambas atulhadas de papel, dos mendigos sentados diante de fogueiras em plena calçada...mas se toda vez que eu pegar um coletivo eu sentir vontade de falar destes problemas, acabo virando estatística na página policial : "Mais um estudante linchado dentro de um ônibus". Fazer o que, se problemas e coletivos sempre combinam no Brasil?
Quinta-feira, Março 21, 2002
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Queria escrever |
Queria escrever
Queria escrever num instante de histeria, num rompante, queria escrever como se hoje fosse o último dia, queria escrever como o mar azul refletido nos olhos da menina loira sentada nas areias da praia , como um garoto perseguido por três outros e se escondendo num bosque, escrever sem rima e sem métrica, sem gramática ou temas, leve e solto como quem voa ou lê deitado num quarto penumbral iluminado por luz tênue de um pequeno abajur assentado sobre um criado - mudo desgastado ou escrever como e portanto quando e entretanto, em latim espanhol, esperanto, esperando sozinho um ônibus debaixo de chuva, como judeus num campo de concentração, sentado num café amarelado tomando um martini ao pôr do sol de uma sexta - feira da paixão como parentes de luto num cemitério aguardando a extrema-unção diante de um mausoléu como um cordeiro na boca de um leão, queria escrever sobre os quadris requebrando da moça que cruza o seu olhar com o meu e sorri numa rua movimentada num dia ensolarado dourado como quem dobra a esquina e não sabe o que vai encontrar, como uma lagarta saindo da crisálida metamorfoseada em borboleta multicolor deixando para trás o casulo de seda, como quem salta de um lado a outro um abismo olhando para baixo , como um carro esporte vermelho à toda velocidade numa curva na estrada antes de se encontrar com um caminhão, queria escrever como uma adolescente voltando sozinha do colégio à noite e seguida por três homens na rua escura da solidão, como uma prostituta sob um semáforo vermelho sendo abordada por um homem que joga ácido em seu rosto, como um biplano amarelo sobrevoando uma planície florida de margaridas onde passeia uma camponesa vestida de branco, como um mendigo velho barbudo e esfarrapado bebendo cachaça num banco da praça, queria escrever como uma festa de debutante com danças jovens e doces damas, como um antigo álbum de fotografias aberto sobre a mesinha de centro sendo visto pela família reunida, como um mafioso cortando o dedo mínimo e oferecendo ao papa na mesa xadrez de vermelho e branco numa cantina no bairro italiano, queria escrever em mim, fechando o meu corpo tal e qual tatuagem literária como se eu fosse um livro e depois me ler e reler sem parar me parafraseando todo, queria escrever no chão e nas paredes de casa com lápis de cor como uma criança e contar as minhas efemérides, queria escrever como as rugas no rosto de um idoso solitário num asilo vivendo das lembranças de um passado que não volta mais como Cristo olhando da prisão para Pedro enquanto o galo canta três vezes, como uma jovem bruxa ruiva queimando na pira da inquisição, como um herbanário arrancando uma mandrágora na floresta para vende-la em sua banca no mercado, queria escrever como um escriba egípcio contando a história de Ramsés II traído por Moisés, queria escrever como um rabino enlouquecido rasgando o talmude e comendo as suas páginas(prove e verá que o senhor é doce), como uma traça comendo um livro raro numa grande biblioteca, queria escrever como um casal mergulhando sob águas translúcidas de um atol e se beijando em torno de águas-vivas e algas verdes , queria escrever como criminosos cavando um túnel sob o presídio, ou como um presidiário riscando as paredes para contar os dias no cárcere, como uma coruja pousada no muro de um cemitério, contra a lua à meia-noite do 31 de outubro , queria escrever como rastilho de pólvora que leva até um armazém repleto de munição e bum! como um lobo capturado numa armadilha roendo a pata para se libertar, como galos numa rinha na Nicarágua,como céticos agourando a procissão, como cegos pedindo esmolas com canecas de metal como doentes desenganados em macas no corredor de um hospital público, como um suicida escrevendo com sangue a última carta feita de pele humana , ou como um pintor pintando um quadro dele mesmo pintando um quadro,e fazer uma palavra descrever mil imagens, como uma cobra mamando no seio de uma mulher, como uma águia voando entre as nuvens vendo um coelho branco ao longe, como uma jovem cigana lendo a sorte num parque, como um açougueiro fatiando carnes ensangüentadas separando-as dos ossos, como um padre ouvindo a sua própria confissão, como um trem partindo durante uma nevasca e afastando namorados de olhos marejados e corações quebrados, como uma barca cruzando os canais de Veneza levando uma freira, como um monge tibetano entoando um mantra, como uma bailarina sem uma perna dançando sobre o palco, que é o mesmo que Deus escrevendo certo por linhas tortas. Queria escrever como um médium psicografando uma carta do além, como um tatuador, marcando a minha própria pele com palavras indeléveis, como um cirurgião fazendo uma incisão, como um dentista obturando um dente, como um escultor esculpindo, como um adolescente fazendo sexo, queria escrever... escrever como o vento escreve nas areias, como as águas escrevem nas rochas, como o incêndio escreve nas florestas como o rastro ondulado de uma cobra, como pegadas de um tigre... como Deus escreveu a criação no caos, como o sol escreve os seus fachos pela janela na poeira suspensa no quarto, como bolhas de sabão flutuando, como as nuvens escrevem no céu azul. Queria escrever com letras prateadas em folhas negras como estrelas num céu noturno, ou com a minha língua no céu da tua boca, com o meu olhar no seu olhar e com letras digitais na tela do celular, queria escrever sobre o conde de Saint Germain tirando as cartas para Giordano Bruno num bistrô na Baviera queria escrever outrora no outono antes que seja tarde e a estação passe, queria escrever com sementes de árvores no chão e plantar uma floresta poética, esboçar a minha autobiografia com sêmen no útero de uma menina e ver nascer o meu romance, um filho; queria escrever um manuscrito com as minhas garatujas ininteligíveis e desafiar um pesquisador a decifrar garranchos ilegíveis queria escrever um livro de capítulos dispersos na cidade, um capítulo de imprecações sobre o presidente em paredes de banheiros públicos, um segundo capítulo de mensagens cifradas de amor com corretor liquido em pontos de ônibus, um terceiro capítulo em grafites rúnicos no alto de prédios, e um longo capítulo no coração de uma bela mulher.
Terça-feira, Março 19, 2002
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Contradições da modernidade
(Nós temos)
Nós temos inseticidas que matam os seres rastejantes fora de nós - mas não temos nenhum remédio que mate aqueles pequenos desejos ocultos que rastrejam nas sombras dentro de nós.
Nós temos supermercados abarrotados de alimentos - mesmo assim a fome nos consome a humanidade.
Nós temos o conhecimento de milhares de anos acumulados - ainda assim existem analfabetos e ignorantes.
Nós temos muito dinheiro com muito poucos e muitos com pouco dinheiro.
Temos veículos que nos levam rapidamente a milhares de quilômetros de distância - mas somos incapazes de avançar um centímetro para dentro de nós.
Temos luzes artificiais para iluminar as noites de todo o planeta - mas nenhuma luz ilumina a nossa alma moderna.
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Sobre o Copan*(do blog Morfina)
Os caminhos parecem tão tortuosos quanto o espiral de um caderno velho e vagabundo. O nível caótico do conhecimento alheio me assusta cada vez mais e tenho a impressão de que as águas do rio já foram deterioradas. Só nos restam as margens. Sejamos marginais, então.
Talvez a história esteja se tornando repetitiva, mas a verdade é que eu preciso respirar a poesia vagabunda para sobreviver. Preciso de corredores escuros e folhas de papel almaço para propagar devaneios. Filosofia barata, linhas mal escritas e velhinhos sambistas. Quem não precisa de um apartamento minúsculo que tenha o sofrimento impregnado na tinta das paredes? Quem não precisa de garrafas de vinho barato para instigar a criatividade? Quem não precisa de amores fracassados para construir a inspiração? A carne é crua, a lua é pura e os sonhos são sempre em vão.
Quero o cigarro mais forte, a noite mais fria e a cortina mais leve, impotente em sua função de barrar o vento que entra pelas janelas. Que entrem os vendavais, a chuva e o saudosismo. Que entrem as canções já esquecidas, a voz do Chico e a sapiência de quem conhece a rua. Seja bem vindo ainda o conhecimento vasto das prostitutas, o brilho crasso dos travestis e as modas perdidas nas décadas já esquecidas. Viva os sapatos gastos, o violão cadenciado e as calças de tergal.
Artistas plásticos, músicos sem sucesso, escritores amontoados: todos eles se unem à podridão do centro velho. É como o teto da casa, a mãe de família. Não se considere uma pessoa de verdade enquanto não tens um amigo artista plástico - sem sucesso algum, que fique frisado. Mas só conte se o rapaz fora abandonado pela vida e se suas cicatrizes estiverem expostas em suas obras. Precisa ainda ter dom e tom para degustar destilados de quinta categoria e contar histórias sobre as esquinas. Não pode ter um centavo no bolso. Tem que saber rir das fotos que o Ministério da Saúde estampou nos maços de cigarro mesmo que elas não tenham a menor graça. Tem que ser completo: amigo-artista-plástico-fodido-viado-e-irônico. Principalmente irônico.
Cravado no centro - tanto da cidade quanto dos corações que pulsam nos bancos dos bares - o gigante estático plantado no asfalto quente define a mistura das falhas e acertos que resulta em substancial melodia. Tudo o que se encontra acima da habitual normalidade está escondido entre os elevadores da década de 50 e as pastilhas que revestem os demais edifícios antigos e poéticos. Esses sim são apaixonantes. Os blocos mais elitizados não cheiram a álcool e prostituição, sequer existem filósofos de botequim circulando entre as escadarias. Dizem que estão ordenando o inferno, destruindo a boemia. Morte aos tiranos.
Conhece o Copan? Quero morar lá. Quero beber vinho Caetê até cair e escrever poesias vagabundas em folhas rasgadas de papel. Quero pisar nos viados que dormem no corredor porque não têm forças para chegar até os apartamentos. Quero acordar de madrugada e subir a Consolação a pé, embreagada de vodka Natasha. Quero um Chevette Junior. Quero filosofar nos botecos da República. Quero publicar um livreto vagabundo com dizeres marginais.
* Este texto tem trechos de e-mail´s que foram enviados a alguns amigos na última semana e, além de uma ode à podridão que a gente tanto venera, é também uma homenagem àqueles que têm sensibilidade suficiente para notar a beleza oculta nas vigas de concreto. Kleber, aqui estamos nós.
Segunda-feira, Março 11, 2002 injetado por Vanessa Marques 2:40 PM
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Do blog Tem certeza ?
Quando eu era pequeno...
... eu achava que era possível ver a rotação da terra olhando para as nuvens... mas aí me explicaram que era só o vento...
... eu achava que dava pra ver a energia elétrica correndo pelos cabos nos postes... mas aí me explicaram que era só o reflexo dos faróis dos carros...
... eu achava que conseguia ver micróbios flutuando por aí, principalmente quando coçava bastante os olhos... mas aí me explicaram que era só ilusão de ótica...
... eu achava que amores como os dos contos de fadas eram fáceis de acontecer... mas aí me explicaram o que é decepção...