Salmo 136 (137 na contagem Protestante) ,
que inspirou a obra Babel e Sião de Camões
Tradução: Pe. Leonel Franca (Edição Ecumênica da Barsa, 1975)
1 Às margens dos rios da Babilônia,
Sentávamos e chorávamos,
Ao nos lembrarmos de Sião.
2 Nos salgueiros daquelas terras,
Penduramos as nossas harpas.
3 E ali os que nos levaram cativos
Pediam-nos que lhes cantássemos um canto,
E os que nos oprimiam, que fôssemos alegres:
"Cantai-nos algum dos cânticos de Sião!"
4 Como haveríamos de cantar um cântico do Senhor
Em terra estranha?
5 Se me esquecer de ti, ó Jerusalém,
Esqueça-me a minha direita.
6 Apegue-se-me a língua ao paladar
Se me não lembrar de ti,
Se não puser a Jerusalém
Acima de todas as minhas alegrias.
7 Contra os filhos de Edom, lembrai-Vos, Senhor
Do dia de Jerusalém.
Eles diziam: "Arrasai, arrasai-a até os fundamentos!"
8 Filha de Babilônia, a devastadora,
Ditoso aquele que te der o pago
Do mal que nos fizestes sofrer!
9 Ditoso aquele que tomar e esmagar,
Contra uma pedra, os teus filhos.
Sábado, Março 16, 2002
| [+/-] |
Salmo 136 (137 na contagem Protestante) |
| [+/-] |
|
Trocas
Troco palavras como grãos de areia levados pelo vento , o murmurar de um escritor solitário, o olhar carente de um órfão, o fogo entre as pernas de uma menina virgem, os pesadelos de um louco num sanatório , os gritos de dor de uma parturiente , os resmungos de um velho abandonado numa casa de repouso e as lágrimas de uma jovem enamorada lendo uma carta de despedida do amado que não volta mais ...troco tudo isto por companhia nas noites sombrias e solitárias de sexta feira .
Sexta-feira, Março 15, 2002
| [+/-] |
Egonomia |
Para aqueles que quiserem saber quem eu sou(ou quem sou eu)
Egonomia
Uma homenagem a mim mesmo...
Quem sou eu nos dias chuvosos
Nas ruas sinuosas
Nos caminhos adversos
No frigir dos ovos
Quem sou eu para os
Bonzos,um sacerdote
Para os Taumaturgos
Um companheiro
Para os poetas
Um corruptor
Quem sou eu nas sendas tortuosas
Nos momentos de crise
Nas falhas e deslizes
Na hora da verdade
Quem sou eu para os lutadores
Um adversário
Para os criadores
Um exemplo
Para os jogadores
O mestre
Para os motoristas
Um pedestre
Para as aves
Um terrestre
A Igreja me vê como um pagão
A sociedade como um monge
Outsider
Andarilho dos subterrâneos
Apátrida, Pária, Herege
Persona non grata, místico
Fanático, radical, reacionário
Eremita, militante, chauvinista
Andrógino, itinerante
Amálgama de tudo isto
Paradoxo ambulante,
Enfim: eu mesmo.
Vejam aquele que é belo
Mas a beleza não ostenta
É sábio mas a sabedoria
Um tapete
É culto mas a cultura
Um falsete
É velho mas a velhice
Imberbe
É maldito mas a maldição
Repele
Inventem dele lendas
Boatos e calúnias
Difamem quem é reto
Corrijam o que ele fez
De certo
Enterrem suas verdades
No cemitério
Deixem-no só para conviver
Com suas quimeras
Para fazer amor
Com suas histórias
Para plantar e colher sozinho
Suas glórias
Façam-no de títere
Ou de pivô
Duma trama sórdida
Envolvam-no
Em mil maquinações
Em enredos
Que prejudiquem-no
Usem-no como peão
E Como objeto inútil
Então livrem-se dele
Tentem a todo custo
Escravizá-lo
Com paixões baixas
Mas se não puderem
Desistam e fujam
Pois ali está o homem
A forca que reside
Em si mesma
O orgulho de nada ter
A não ser a razão
Daquele que ousou
Usou o Universo
Como a um veículo
Para o seu amor
Fujam pois seus olhos
Ferem como adagas
Nós que somos ímpios
Ígneos, iníquos
E servos do Mal;fujam.
Ali está a verdade
A realidade
E a temida coesão
Que combatemos
O seu nome reúne
Nove outros agregam
Ao primeiro tal poder
Que ele teria que ser
Derrubado nove vezes
Para se abater de vez
As suas palavras soam
aos escudos golpeados
Pelas inverdades ditas
Tal espadas afiadas
A serviço do bem
E a sua residência
É tal uma fortaleza
Protegida
Pelo criador de tudo
Contra ela só podemos
Gritar imprecações
Bravatas inúteis,mas...
No último dos dias
Seremos milhões
E, ele estará só
Assim como outros
Existirão separados
Estarão sem forca
Esperemos...
Quem sou eu
Nos desafios
Nos desafinos
Nos desatinos
No entardecer cinzento
Na construção de um novo mundo
No irreal e nos pesadelos noturnos
Quem sou perante aqueles
Que se fazem de amigos
E que se declaram inimigos
E daqueles que se mostram
Mas demonstram ser outros
Quem sou eu nas linhas tortas
Rabiscadas no manuscrito de Deus
À beira das portas,nas horas mortas
Nos corredores sombrios de bibliotecas
Quem sou eu nas cidades perdidas
Nas muitas escadarias infindáveis
aonde velhos pianistas foram morrer
Nos vis motéis, baratos e imundos
Acompanhado de más recordações
Para os limítrofes
Um semelhante
Para os estéticos
Um semblante
Para os críticos
Uma vítima
Para as mulheres
Um homem
G.G. 19/10/98
Segunda-feira, Março 11, 2002
| [+/-] |
|
Sobre sonhos
Eu sonhava com uma casa para onde me mudava; no sótão desta casa descobria um templo oculto que só eu entre todos da família tinha coragem de entrar. O sonho se foi quando descobri o seu significado : a casa era eu, e aquele templo na casa era a minha busca por encontrar-me no labirinto que eu sou - que sou eu. Todos nós temos um templo dentro de nós, a ser encontrando através não apenas das religiões mas de algo muito maior, da sua religião pessoal.Abaixo segue um texto de Borges sobre isto:
Sempre sonho com labirintos e espelhos. No sonho do espelho, aparece uma outra visão, outro terror das minhas noites: a idéia das máscaras. As máscaras sempre me deram medo. De fato, quando criança, eu pensava que, se alguém estava usando uma máscara, era porque estava escondendo algo horrível. Meus pesadelos mais horríveis são aqueles onde me vejo refletido num espelho - com uma máscara no rosto. Tenho medo de arrancar a máscara porque temo ver meu rosto verdadeiro, que imagino medonho. Nele pode estar presente a lepra, o mal ou algo mais terrível do que eu seria capaz de imaginar.
Jorge Luís Borges
| [+/-] |
|
A busca pela identidade
Acredito que o ser humano seja muito mais complexo do que possa parecer em análises mais rápidas ou precipitadas em situações do tipo "amor à primeira vista" ou "psicóloga entrevistando candidato à vaga para um emprego". Quando comecei a tentar conscientemente me definir e conhecer como indivíduo, descobri que a sociedade nos atribui códigos numéricos arbitrários, inscritos em documentos designados por acrossemias como cpf, rg... pqp, nda, etc. Nos cobra definições de senhas de acesso pessoais, a escolha de profissões através de vocações para nos tipificar, nos atribui signos zodiacais involuntários, nomes e sobrenomes atávicos escolhidos ou legados por terceiros que são os nossos pais. Nenhum deste rótulos, estereótipos, arquétipos marcas, senhas e tipificações é conscientemente ou voluntariamente escolhido, talvez nem mesmo as nossas profissões sejam por dependerem de talentos, dons, habilidades inatas que não escolhemos. Para me construir internamente como pessoa, precisei de duas coisas: construir um corpo forte para me defender e uma mente forte para atacar . E constatei que precisamos designar outros códigos, senhas, pseudônimos, nicknames, etc, para nos definir e nos dar acesso a nós mesmos. Aqui indico uma pequena lista do que todos precisamos ter com a finalidade de formarmos uma identidade: autoconhecimento, conhecimento, símbolos pessoais. Entre os símbolos pessoais, é preciso que se tenha um monograma, um totem, um signo. Aos poucos, demonstrarei quais são os meus símbolos pessoais além dos já conhecidos Gregory Grimaud e um deles está relacionado com o título do meu diário.
| [+/-] |
|
Sobre um dos motivos da crise do mundo moderno e gatos pretos
A crise do mundo moderno é caracterizada por vários aspectos de decadência, entre eles está a dessacralização, com as suas terríveis faces, a profanação e as heresias. Dessacralizar significa faer algo sagrado deixar de ser. Tal fenômeno ocorreu com várias religiões e filosofias, e quanto mais antigas estas eram, mais acentuado e sedimentado está hoje o processo de dessacralização. As inúmeras religiões ritualisticas tribais denominadas de xamanismo ou animismo sofreram este processo conforme eram dizimadas pelo colonialismo dos ditos povos civilizados. Assim, um vaso ritualístico sagrado passou a ser chamado de artesanato tribal, pictogramas descrevendo rituas eram estudados artística e linguísticamente, mas o seu significado jazia morto e esquecido juntamente com o povo que o conhecia. Da mesma maneira, religiões como a dos gregos, romanos, nórdicos e hindus (esta última ainda viva) foram denominadas mitologia e estudadas como histórias simbólicas. O valor dos elementos de tais religiões passou a ser um valor comercial e histórico, mas o seu valor no auxílio de vidas humanas, para nortear as ações e dar esperança aos indivíduos perdeu-se. Era comum nas religiões antigas a personificação de forças da natureza, inclusive animais, a sua divinização e culto; igualmente era comum identificar semelhança entre estas divindades e indivíduos das tribos, entre homens e totens. Isto originou, por exemplo, os signos astrológicos. Hoje, atribui-se a cada pessoa um signo que descreve configurações específicas e pessoais de forças que se somaram no lugar e instante do seu nascimento para tornar você o que você é na vida terrena, bem como as rotas para a sua evolução através do aperfeiçoamento de qualidades e da superação dos defeitos . Porém o conceito de animal-totem ficou perdido: o totem é uma entidade animal que rege a sua vida espiritual, aquele seu aspecto expresso nos sonhos e nas viagens proporcionadas por alucinógenos. Parece-me que ao mesmo tempo você escolhe um totem e o totem escolhe você.
As borboletas, totem da transformação, sempre me perseguiram, aquelas conhecidas como bruxas, geralmente negras como uma profunda noite escura.
Porém o meu totem é o gato, um grande gato preto com olhos amarelos; uma pantera negra.
Talvez isto justifique o fato de ter gatos em casa. Engraçado isto : realmente no horóscopo chinês eu sou um felino, o tigre. Um tigre pisciano...e por falar em peixes, espere aí que vou comer o peixe do meu aquário.
A história dos gatos de casa
Os meus gatos são os sobreviventes de uma ninhada da matriarca Suzie, uma bela gata preta de olhos azuis adotada pela minha mãe. A ninhada gerou George,Floquinho, Jorge (pretos) e Leopoldo(tipo gato de botas ou "sagrado da birmânia", pelos cinza - esbranquiçado com patas e cauda cinzentas ) ; Suzie desapareceu meses após o desmame da ninhada; Jorge e Floquinho foram adotados por vizinhos, mas Floquinho adoeceu ainda jovem e morreu; Catarina, George e Leopoldo continuaram conosco mas George e Leopoldo brigaram e se foram de casa, e, até onde eu sei, estão vivos: estes dias vi Leopoldo na casa do vizinho, que tem uma dezena de gatos, e há alguns meses a minha mãe viu George nas redondezas ; Catarina, temperamental, continua em casa juntamente com a Sexta-feira, uma gata preta enorme de gorda que decidiu que aqui é o seu lar. Que tal assistir novamente o filme "A marca da pantera"?