Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência
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Silêncio.
Veja tudo, ouça tudo, mas não fale nada.
A palavra é o tropeço dos tolos, o silêncio é a arma dos sábios.
Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.
Nem tudo o que parece inanimado é sem vida. Nem todos os mudos são incapazes de falar.
Nem tudo o que parece silencioso é sem eco. Nem todos os trovões podem ser ouvidos.
O jogo da morte contém sete erros, o inteligente os reconhecerá. O sábio não os apontará.
A família educa, a escola ensina, o templo guia,a rua corrompe, a polícia prende, a justiça julga, a prisão contém.
O caminho do crime leva ao beco do castigo...


Noberto no inferno


6



Noberto Figueira demorou para perceber o que estava acontecendo. Ficou ali no cemitério com a massa encefálica espalhada pelo chão, e um globo ocular ejetado, justamente onde a bala entrou.
Quando levou o tiro, ele cambaleou e caiu sobre o próprio caixão, onde teoricamente deveria estar. As pessoas correram desesperadas e num instante estavam sós, ele e o padre assassino.
Era a hora do crepúsculo e o cemitério tingira-se de uma tonalidade rubro e dourado.
Noberto chingava o padre de todos os nomes, de nenhum nome. Ele parecia não ouvir palavra do que Noberto dizia.
Em verdade, o padre não mais via Noberto mas Noberto ouvia sussurros vindo de algum lugar, de lugar algum. Talvez fossem as pessoas do enterro, escondidas entre as lápides e os mausoléus.
Súbito, um gato preto cruzou o caminho de Noberto Figuera. O felino virou-se, olhou para Figuera e pareceu sorrir; os olhos do bichano infernal tinham um brilho dourado como o do crepúsculo e Figuera arrepiou-se por inteiro.
A situação de Noberto era horripilante. Acompanhou o gato com os olhos e simplesmente o viu sentar-se sobre um corpo caído. Noberto ainda não percebera que aquele corpo desengonçado jogado sobre o caixão era o seu corpo. Os cegos demoram a conhecer a verdade, mesmo assim , de alguma maneira, Noberto Figuera sabia o nome do gato que o atormentava: o gato que ri.
Tentou se segurar, mas logo num instante chingava o gato de todos os nomes, de nenhum nome.
Então uma voz gritou dentro da cabeça de Noberto:
-- Silêncio.
-- Veja tudo, ouça tudo, mas não fale nada.
-- A palavra é o tropeço dos tolos, o silêncio é a arma dos sábios.
-- Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.
-- Nem tudo o que parece inanimado é sem vida. Nem todos os mudos são incapazes de falar.
-- Nem tudo o que parece silencioso é sem eco. Nem todos os trovões podem ser ouvidos.
-- A família educa, a escola ensina, o templo guia,a rua corrompe, a polícia prende, a justiça julga, a prisão contém.
-- O caminho do crime leva ao beco do castigo.
Eram as estátuas, que criaram vida e fizeram um círculo em volta de Noberto. Ele já passara por isso várias vezes na sua vida, esta era a primeira vez na morte: um julgamento.
As estátuas tinham aparência de mulheres, virgens imaculadas,anjos e pequenos querubins inocentes. As palavras de uma pareciam se encaixar na de outra, como um jogral de mármore.
-- Noberto Figueira cometeu sete erros em vida.
-- O jogo da morte contém sete erros, o inteligente os reconhecerá. O sábio não os apontará.
-- Noberto errou porque acreditou que tinha o coração de pedra.
-- Por isso, será julgado por estátuas sem sentimentos.
-- Figueira errou por acreditar que tinha os nervos de aço.
-- Por isso somente o aço poderá livrá-lo dos grilhões que lhe tolhem.
-- Noberto falhou em crer que sua cabeça era dura demais.
-- Assim, uma bala lhe atravessou o encéfalo.
-- Figueira achava em vida que tinha estômago forte .
-- Veremos na morte quantos sapos pode engolir.
-- Noberto dizia que o seu sangue era quente.
-- Descobrirá que a lava e o enxofre são mais.
-- Figueira dizia que tinha a língua ferina.
-- Mas a palavra é o tropeço dos tolos e na língua bífida das serpentes há mais veneno.
-- Noberto creu que tinha fôlego de gato, ainda que detestasse os felinos.
-- De maneira que um gato sorridente o guiará pelos caminhos do crime no castigo do inferno
Então uma das estátuas, com aparência de mulher - usando um vestido longo, trazendo na mão esquerda uma espada e na direita uma ampulheta - sentenciou:
-- O júri dos mortos condena Noberto figueira a expiar os seus erros no inferno.
Noberto começou a gritar histericamente:
-- Putaquepariu, caralho! Eu não vou pro inferno, eu não vou pro inferno!
Mas uma voz conhecida disse:
-- Você já está nele, porque ele está em você.

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