Areias ao Vento
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O presídio
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Noberto Figueira conheceu o presídio como quem acorda de um sonho e se descobre num pesadelo.
Ele ainda podia ouvir o ecoar do martelo "Culpado", no tribunal enquanto raspavam -lhe a cabeça. Carandiru era o nome da embaixada do inferno na terra.
Trancafiado numa cela com trinta e seis outros criminosos, Noberto acordou aquela noite sentindo um ardor no ânus. Havia um peso sobre ele. Era outro presidiário. Noberto estava sendo currado.
Quando amanheceu o dia, o zelador em sua ronda matinal horrorizou-se ao ver trinta e seis corpos amontoados sem vida e Noberto dormindo como um bebê.
Os dez homens da tropa de choque receberam um membro viril, que Norberto atirou logo que invadiram a sua cela.
E foi assim que a fama de Noberto se espalhou, até que ele se tornou um dos homens do maior traficante do Brasil, preso ali mesmo no Carandiru.
Uma cela especial, como se ele fosse diplomado, visitas sexuais de modelos e atrizes da tv. Mesmo assim, Noberto não estava satisfeito. Ele escrevia o seu Livro dos Dias com sangue, drogas e morte . O diário de um detento.
Durante a estada de Figueira no Carandiru, a passagem mais estranha foi o dia em que o Profeta o chamou à noite para conversar.
O homem conhecido como o Profeta era um velho negro cego que mofava numa cela especial com duas carrancas nas grades. Diziam que a sua cela ficava trancada não para impedir que o Profeta fugisse, mas para evitar que algum criminoso vil ali entrasse e o matasse durante a calada da noite. Segundo alguns, naquela época a pena do Profeta estava expirada havia dez anos e ele permanecia ali para observar o que acontecia no Carandiru.
Ele acendeu os lampiões que tinha autorização para usar quando recebia visitas e disse:

-- Você carrega a morte consigo. E só sairá daqui morto.
-- Ora, seu velho...
-- Calma, Figueira. Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.

E, dizendo isso, o Profeta apontou a parede oposta da cela. Noberto pegou o seu lampião e foi até a parede indicada pelo velho e ali, viu escrito na pedra:

Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enchergar.

Só naquele instante Norberto viu as gravações em todas as paredes, no teto e no chão da cela do Profeta; inscrições em baixo - relevo de tudo o que o velho ouvia e sabia no Carandiru.

-- Este é o Livro dos Mortos do Carandiru, Figueira. Em breve o seu nome estará nele, mas tal é a sua sina que até dos mortos seu nome será apagado.
-- Vá pro inferno, velho louco - gritou Norberto e se foi.
Ele não ouviu o velho dizer :
-- Estamos a um passo dele, amigo. E lá nos encontraremos.
E, em seguida, apagou os lampiões.

Na semana seguinte, Noberto ficou sabendo de um plano, uma chacina que fariam no pavilhão nove para mascarar a morte de alguns cabeças do tráfico, rivais.Ele arquitetou um plano, que só uma mente criminosa e perturbada poderia conceber.Logo que as chamas, as balas, os gritos, os latidos dos cães se acalmaram, Noberto foi até a pilha de cadáveres.Com um estilete ele pegou um dos corpos e começou a mutilá-lo como um açogueiro insano.

Horas depois, 110 corpos saiam em peruas do IML diante dos parentes, curiosos e da imprensa atônita.
Um dos corpos chamava muito a atenção, por estar tão retalhado que espalhava seus pedaços conforme era transportado.
Este morto abriu um dos olhos para dar uma última olhada no seu lar de tantos anos e viu o velho observando da janela de sua cela e sorrindo. As palavras Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enchergar, faziam tanto sentido que um calafrio percorreu a sua espinha.

O massacre no Carandiru

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