Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Quando morei no Japão



Descobri que um ano pode se multiplicar por cinco, pois o que importa não é o relógio da parede ou o do pulso, mas o relógio do coração e o da memória. E que antes estar acompanhado do que só.
Quando morei no Japão, descobri que lá eu era analfabeto e que palavras poderiam ferir como espadas mesmo (e principalmente) quando não entendidas. Lá aprendi que não importam as línguas dos homens, e sim a língua universal do pensamento. Viajando para o Japão, percebi que a principal bagagem que carregamos é aquilo que somos e sabemos, e não o que temos e detemos. Indo ao Japão, descobri o meu elo com os ciganos : e, com o elo, a lição de que devemos juntar somente aquilo que somos capazes de carregar numa mala.
E foi na terra do sol nascente que descobri que parte do que eu sou é uma ponte sobre um velho rio.
E que uma semana pode ser dourada ; fogos de artifício são hanabi; camarão é eibi, mas sakana não é o que se pode imaginar, e sim peixe; e, principalmente: bozo não é um palhaço, mas um careca.
Lá descobri que os cães ladram e a caravana passa, que macacos caem da árvore, e que se tarda não falha.
Ali no leste aprendi com um ancião que pouco importa o quanto o chão lá fora trema, o importante é não tremermos por dentro.
E aprendi que se você for capaz de copiar algo, fazendo-o menor, ficará rico. E os semelhantes têm diferenças entre si, bem como os diferentes guardam semelhanças mútuas.
Há pessoas capazes de comer camarões vivos, e lulas com cabeça, mas são tão acanhadas que fingem dormir nos trens para não encarar ninguém.
Entendi que tudo tem o seu preço - especialmente o sexo - mas a felicidade é tão cara que é impossível calcular o seu valor. E o quanto custa então aqueles que amamos ...?
No Japão descobri até onde pode ir a tecnologia o trabalho e a ganância. A Terra é redonda, este mundo, pequeno; mas paredes são quadradas e se perdem no infinito de um apartamento.
E a solidão é a saudade, a ausência e falta de contato humano: saudade é a nostalgia de estar junto aos entes queridos : e a nostalgia é a falta que faz a pátria-mãe.
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