Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Aeroporto



A minha irmã o meu tio e primas estavam ali comigo no aeroporto. As minhas entranhas sabiam disso. Entrei no avião, lotado. Sentei num assento que por azar não reclinava. A primeira vez num avião, ainda assim era interessante vê-lo decolar olhando pela janela.Muito ficava para trás: a confraria de amigos, uma namorada, um país. Durante o dia inteiro de viagem que nos separa da terra do sol nascente senti a temperatura despencar. Vesti a minha malha de lã preta. Senti a barba crescendo e uma rápida olhada no espelho do toalete confirmou a expectativa de que desembarcaria da aeronave no destino com a aparência péssima.Eu sabia que encontraria naquele país desconhecido, na terra do meu avô, algo diferente de somente conhecer as raízes da família. Quando finalmente chegamos ao aeroporto de nagoya, um frio polar obrigou-me a vestir o meu sobretudo o que me transformou numa figura sombria de trajes e bagagens pretas, a barba por fazer completava o quadro de uma personagem cinematográfica, entre o mocinho e o bandido, os traços de um muçulmano, talvez egípcio, que chamava atenção de todos especialmente do pessoal da alfândega.Os demais passageiros passavam por mim enquanto os policiais e seguranças examinavam desconfiados as minhas cuecas e os meus livros misteriosos na grande mala preta.
-- I'm here to visit my relatives - balbuciei mas nem fui entendido nem me esforcei por me fazer entender.

Começava ali a barreira da linguagem que era o problema maior enfrentado pelos brasileiros no Japão. Um japa me recebeu logo que me livrei dos homenzinhos de azul e luvas brancas que fuçavam nas minhas coisas e me pus aturdido no interior de uma van.
Assim que o veículo se pôs em movimento aconteceu em mim o primeiro evento daquele fenômeno patológico e patogênico que é denominado choque cultural...
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