Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

O Livro dos Mortos 8

O Livro dos Mortos 8

O confronto: um mundo de sal



Eu sou a chama que arde nos olhos de uma menina quando fita um homem maduro e eu sou as labaredas nos olhos do homem maduro que deseja a menina; sou o fogo da cobiça dos que querem
sempre mais e também sou o muro de fogo em redor dos avarentos que não querem gastar o que adquiriram. O ardor no estomâgo daquele que não se sacia com pouco... sou eu o fogo de ódio no olhar de vingança, esse certamente sou eu, mais do que o rubor na face dos soberbos , eu sou. Eu fui a chama que queimou a biblioteca de Alexandria, a mesma que das mãos de Nero queimou as ruas de Roma. Eu fui nas chamas do Vesúvio a ruína de Pompéia e eu fui o vinagre que ardeu na garganta de Cristo na cruz. Temudjin e Átila levaram o meu fogo aos homens. Eu sou o ardor na base das colunas dos meninos e das meninas, dos homens e mulheres, dos velhos e velhas e faço uns se deitarem com os outros e se procriarem exclusivamente para acalentarem a chama do desejo que lhes arde nas virilhas. Eu sou a chama da peste que destrói a carne eu sou a chama da fome que queima o estômago , a chama da guerra que ateia fogo às cidades e eu sou a chama que crema os homens após a morte. Eu sou a labareda que destrói a crença, eu sou o incêndio que consome a chance, sou a flama da paixão que inflama o amor. Eu sou a chama da fornalha Geena que renova integralmente a natureza através do fogo. Então como alguém poderia esperar que eu temesse a luz?
-- É verdade, vamos começar? - eu sugiro sem saber ao certo se realmente estou pronto para o duelo
-- Você me parece apressado - afirma ele assumindo novamente a forma de Cali.- não está planejando algo, algum truque?
-- Claro que não, porque, você está?
-- Mesmo que eu afirmasse que não, você não acreditaria, afinal eu sou o príncipe das mentiras.
-- Se você é o principe das mentiras, nem posso imaginar quem seria o rei.
-- O rei é o Caos. Mas comecemos:Este é o mundo formado pelos mares que secaram, um mundo feito do sal da terra. Ao secarem os mares, os peixes pequenos morreram, porque soubrou-lhes pouco espaço para fugirem dos peixes maiores, mas os peixes maiores morreram , por falta de espaço e alimento. Apenas os peixes médios sobreviveram.
Como poderei declarar o que agora vejo diante de mim? Conforme o mundo é descrito, ele assume forma perante os seus criadores. Num dos aspectos ele é micro, e flutua diante de nós idêntico a uma bolha de sabão. Noutro ponto de vista, ele é macro, é imenso , é mega. Comporta-se e tem o porte de um planeta e cada ser que descrevemos adquire vida, e cada episódio que narramos - não importa se dure uma era ou poucos segundos - passa como um relânpago mas também está cristalizado no tempo.
-- Os peixes médios desenvolveram gradulamente respiração pulmonar, tornaram-se anfíbios e finalmente passaram a andar sobre a terra. - a minha vez deixa muitas brechas para o Demônio criar a sua história. para cada evento benéfico que eu crio, ele gera um maléfico que o neutraliza. Se o Bem, a qualquer momento prevalece, o mal é derrotado. Se o mal, a qualquer momento prevalece, o Bem é derrotado. neste duelo dialético, nesta disputa demiúrgica, não há vencedor, apenas o perdedor.
O Demônio então sorri, como se estivesse esperando a minha resposta e prossegue:

continua.

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