Areias ao Vento
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O Livro dos Mortos 7

O Livro dos Mortos 7

O confronto:prelúdio luminoso



Estou para iniciar o duelo de demiurgia, a disputa da criação de mundos e agora surge uma fortíssima luz rasgando o vazio negro do umbral. Conforme a luminosidade se aproxima, vejo todas as criaturas do inferno correndo e gritando em dores profundas. Para estas criaturas lucífugas, a luz que agora se aproxima é tão dolorosa quanto para nós humanos é a luz do sol se olhada diretamente ou se amplificada sobre a nossa opele com uma lupa, ou quiçá como o raio laser. Nesse instante em que vejo melhor com a ajuda da luz que vem a nós , o inferno se descortina como uma espécie de ovoteca incrustrada no umbral. Dentro de cada ovo de material gosmento vermelho-translúcido há um sofredor ou demônio, mas só os demônios podem se locomover de uma esfera a outra. Eu vejo mulheres com patas e aparelhos bucais de baratas, cercadas de espelhos flutuantes...eternamente fugindo de sua fobia, fugindo de si mesmas. Eu vejo homens cujas pernas são unidas, formando um outro tronco desprovido de membros e rostos, mas com enormes vaginas: estes homens incessantemente penetram a si mesmos. Eu vejo homens diante de réplicas deles mesmos, agredindo-se infinitamente. E vejo homens fazendo algo que é impossível de se descrever em palavras, mas tentarei da melhor maneira: estes homens são os que abusam sexualmente dos próprios filhos: alguns deles começam a violar os filhos,ao quais estão ligados por cordões umbilicais perispirituais, mas no instante em que o fazem, são dragados pelo cordão e assumem o lugar dos filhos, sentido as dores e vergonhas que os pobres sentiram no momento do ato. E vejo homens engolindo os próprios pênis , e todo o corpo, e se tornando esferas até desaparecerem, estes são homossexuais como os que já vi anteriormente. E tento não rir, mas vejo nesse instante homens com aparência comum, mas insistentemente os vejo enfiar a mão esquerda no bolso direito no afã de roubar de si mesmos o dinhero, mas eis que vejo a mão direita segurar a esquerda e a parte direita da boca gritar por "socorro, pega ladrão" e a boca direita retrucar"cala a boca, senão morre" e coisas do tipo, pois estes são que têm a alma dividida em duas inclinações, crime e castigo, vilão e vítima. E vejo moças fazerem coisas que me envergonho de descrever, mas que pelo bem da verdade devo narrar: essas moças têm todos os orifícios do corpo cobertos por uma fina pele, uma membrana como um hímen : nada vêem , nada ouvem, nada comem, nada cheiram, nada expelem porque em vida quiseram enganar homens se fazendo de virgens quando não mais eram puras e intocadas. Estas falsas virgens também surgem expelindo rios de esperma por todos os orifícios no instante em que tentam mentir "Eu ainda sou virgem" e nesse rio se afogam para sempre. Outras mulheres e homens têm o tamanho de continentes e os outros andam sobre elas, são os gulosos. E vejo vermes se arrastando, são os preguiçosos, e entre eles reconheço o rosto daquele que tem a alcunha no infinito mar digital de Spab, mas que em vida é chamado Gustavo, sonhando que é o rei dos vermes da preguiça do inferno.
Mas agora a luz se aproxima de mim, e reparo que o Demônio não foge da luz como os demais demônios menores, o que confirma a sua origem angelical.
A luz, na verdade, são quatro luzes e uma delas, a do centro, é a figura daquele espírito iluminado conhecido em vida como Francisco Cândido Xavier. Ele vem a mim acompanhado de três anjos tão poderosos que chego a temê-los mais do que temo o Demônio que me acompanha.
-- Venha, filinho, vim resgatá-lo do inferno . Estou acompanhado de Oromásis, Mítris e Aramínis , os príncipes do mundo que garantem que o seu nome ainda não foi escrito no Livro dos Mortos, portanto é ilegítima a sua estada aqui.
-- Eu sei querido Chico mas devo terminar agora o confronto com ele. Mas devo agradecer a você, Chico:
você que em vida fez a ponte entre os vivos e os mortos, agora faz a ligação entre os mortos e os vivos, Francisico Cândido Xavier. As suas mãos grafaram lágrimas de amor e saudade dos filhos que se foram aos pais que ficaram. A mão sobre os olhos, uma caneta deslizando sobre o papel. Escrevendo o Amor com letras toscas. Vendendo livros para ajudar aos pobres. Resta, por último, a pergunta: se você transpôs a ponte, quem trará agora a sua mensagem a nós?
-- O Amor, pequenino. O Amor.
E ele se foi, e o inferno voltou a ser tenebroso.

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