Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

O Livro dos Mortos 6

O Livro dos Mortos 6


-- Eu vi um homem que tinha os bagos na boca e a boca no lugar dos bagos ;uma mulher cuja língua era um pênis, e outra de cuja vagina brotava dinheiro;vi um homem quase como uma esfera, porque o seu tronco inteiro entrava pelo ânus; e uma mulher com o ventre aberto e, de dentro, um feto gritava: "mãaaaaae, não me mate de novo, por favor". Viu um velho acorrentado a um cofre tentando fugir de feras carniceiras como cães insanos. Vi um homem numa maca e, com um bisturi ele retirava um dos rins e a seguir o recolocava interminavelmente reiniciando o ciclo. Vi um homem preso num automóvel em alta velocidade que colidia com o vazio, ficava em destroços para em seguida se refazer e novamente disparar em alta-velocidade. Vi um sujeito violando um menina no escuro e, súbito, uma luz se acendeu e ele gritou:"filhaaaa, desculpe" e então o vi se matar com um tiro na boca para reaparecer na mesma cena sem-fim. O mais engraçado de todos era o mentiroso, que dizia para si mesmo"sou um homem rico" e mudava as suas feições para as de homem rico...mas logo aparecia alguém na escuridão e gritava: mentiroso! e ele inventava uma nova mentira: "eu sou rico em espírito"e parecia se converter num ser de luz mas logo vinha alguém na escuridão e lhe gritava: "mentiroso, se tivesse luz, não estaria no inferno!".

E agora, vejo algo que me deixa mais aterrorizado do que tudo isso junto: o demônio doutrinando almas e tentado tirá-las do que ele proprio chama de ourobouros , o ciclo interminável da culpa. Mas quando ele chegava, com o seu belo rosto, o católico o via como um bode antropozoomórfico, o espírita como um espírito sem luz, o cético como o seu maior terror... mas eu continuo estupidificado com a ação do demônio. Novamente ele responde sem que eu tenha formulado questão:
-- O que você esperava de um anjo caído? Assim como o homem conhecido na Terra como Judas Iscariotes foi o escolhido para ser o pivô da paixão de Cristo, eu fui o escolhido para se o verdugo e achacador da humanidade. Porém continua existindo em mim aquele anjo benevolente. A analogia perfeita da minha função na pós -vida é aquela que em vida vocês denominam de profissão advogado: o advogado de defesa sabe que o seu cliente é culpado mas o defende mesmo assim, e o acusador sabe que o réu é inocente mas o aponta como culpado da mesma maneira, na débil tentativa de estabelecer o equilíbrio entre o crime e o castigo que vocês denominam justiça. Da mesma maneira que um advogado, eu incito os homens a cometerem o mal de um lado, e os auxilio a expiarem a sua culpa do outro lado. Daí o termo advogado do diabo.
-- Eu entendi o que você quis dizer até agora...mas ainda não entendi porque me revelou este lado do inferno.
-- Antes de responder a pergunta, queria lhe confessar uma coisa , Patrick.
-- Pode falar, mas confessar não é um dos sacramentos?
-- Não aqui. Pois bem lembra-se daquele dia no seu quarto, quando você ainda menino, teve a impressão de que havia alguém com olhos flamejantes olhando-o das sombras no canto ?
-- Sim.
-- Era eu, eu o observei desde menino. Mas isso não é exclusividade sua; eu observo todos aqueles que poderiam mudar a história da humanidade. Potencialmente, toda a pessoa que aprimore em si o talento da escrita e com ela produza uma obra, está sendo observada pelo demônio. Eu admiro a sua obra e agradeço por citar o meu nome...com os seus versos e textos você levou muitos ao caminho do bem mas também trouxe muitos a mim. Agora eu tenho uma proposta a lhe fazer.
-- Eu não farei pactos com você.
-- Não se trata de um pacto, apenas é uma proposta. Eu lhe devolvo a vida com tudo o que ela tem de bom, do bem e do belo se você escrever um livro ao meu respeito: o perfil do Demônio ou algo parecido.
-- Eu jamais escreveria tal coisa.
-- Prefere vagar aqui por toda a eternidade?
-- Creio que sou diferente dessas pessoas aqui, eu não sinto culpa por nada.
-- Sinto afirmar que está errado. Você se sente culpado, sim, por ter escrito ao meu respeito e não ter explicitado que eu não devo ser seguido. Agora se obriga a vagar aqui pela eternidade tentando reparar o mal que fez através da escrita. Você distorceu o verbo, Patrick Berlinck! Criou mundos sem luz e sem Deus, discorreu sobre o demônio mas não falou a verdade às pessoas. Agora está condenado.
-- Infelizmente, Satanás, eu não posso mandá-lo ao inferno por que aqui já estamos.
Bastou essa instante de esquecimento para ver Cali se converter no senhor do mal, por eu ter invocado o seu nome. Evitei olhá-lo, mesmo porque apesar de hediondo, ele ainda não se mostrava furioso.
-- Irei lhe dar uma última chance...
-- Sem chances e sem pactos comigo .
-- Você merece a fama que tem, Berlinck. Eu não quero a sua alma aqui, nem o Demônio é capaz de suportar alguém como você. Eu apenas preciso que você aceite servir como um intermediário, porque eu mesmo escreverei a obra máxima da sua vida. Eu então proponho um jogo que irá colocá-lo no seu devido lugar, mostrando que sou melhor criador que você.
-- Eu não irei jogar .
-- Ouça primeiro: eu proponho que criemos mundos inteiros aqui. Eu e você. Eu tentarei corromper o seu mundo e voce tentará salvá-lo com o poder da palavra escrita. O melhor de três, vence. E se você perder a minha palavra ainda vale, devolvo-o à vida, lhe dou sexo dinheiro e saúde na Terra se escrever um livro sobre mim.
Nesse instante eu me volto para a besta-fera e olho-a nos olhos - onde ardem chamas que vi quando criança no escuro do meu quarto - e vou dizendo:
-- Então, quando vamos começar?

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