Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

O Livro dos Mortos 12

O Livro dos Mortos 12

O mundo dividido II




-- Neste mundo dividido, nem tudo é perdido, porque há a humanidade pura e livre da contaminação tecnológica, vivendo num verdadeiro paraíso terrestre, sobrevivendo da natureza. Esta humanidade, Aedevael, conseguiu restabelecer o antigo equilíbrio. Caminhou por antigas trilhas, restaurando a fé e a esperança outrora perdidas; restaurou a unidade familiar, a fidelidade conjugal, a igualdade social, a fraternidade humana e a liberdade do cidadão. Tudo isso graças ao fim da indústria e a derrocada do modelo universal de desigualdade nela fundamentado, o capitalismo.Nesta nova sociedade humana, impera o socialismo de troca: ao mesmo tempo há moeda , distribuição de renda e comunismo. As doenças foram abolidas, a fome inexiste, a guerra não tem motivo de ser e a morte vem quando pede a natureza. Esta humanidade sente pena da humanidade escravizada pela tecnologia. O que sempre quis dizer é aquilo que está dentro, a mensagem da fé, da esperança e do amor - a mensagem que está escondida na arca do coração, aquela que não pode ser aberta.

-- E o primeiro ataque contra a indefesa humanidade de jardineiros é desferido. Os robôs - caçadores remotamente pilotados, RCRP, avançam nesta noite escura. O seus faróis são vistos pelas crianças, que correm acreditando serem as máquinas voadoras algum brinquedo feito pelos adultos. Alguns são mortos por laser, outros por microondas descargas elétricas e variados instrumentais de matança acoplados aos robôs. Para aqueles que tinham esperança, veio o desespero; para os que tinham fé, veio a descrença; onde havia amor, surgiu o ódio. A segunda investida dos robôs é contra as moradias: sem abrigo, virá a doença, pois o frio do inverno é implacável; a terceira investida é contra as plantações, porque se faltar alimento na estação da colheita, terão que recorrer aos estoques. Mas o ultimo ataque afeta os estoques,e, sem eles, a fome é inevitável. Com o clangor do aço da guerra, somado ao frio que gela ossos e traz a doença, e a escassez de alimentos que acarreta a fome, a morte fez-se presente. Os robôs retiraram-se, retornando ao metroplexo urbano bionet. Porém , a sensomídia constatou que o sucesso do programa foi sem precedentes, entretendo os neturbanitas de uma maneira tão plena que se decidiu agir de maneira diferente: um novo plano, secreto, foi traçado.

-- Os poucos sobreviventes Aedevael tornaram-se nômades itinerantes , vagando carregando a sua arca do coração. Sem fé no futuro e nos frutos de Deus na sua caminhada, mantiveram a esperança nos dias melhores; mas desesperados pela desgraça, mantiveram a fé não em dias melhores, mas nas lembranças do passado glorioso. Aqueles que amavam os que foram levados pela guerra resultada em morte, alimentavam-se de ódio e venciam a fome. Os doentes sobrepujavam a peste ajudados pelos sãos.
A maioria clamava por guerra, não apenas por vingança, mas porque intuiam que o inimigo voltaria a atacar.

-- E o plano dos neturbanitas foi posto em prática: robôs voadores espalham nanorobôs que funcionam como esporos virais. O vírus? Bionet. Os Aedevael afetados pelos esporos se tornarão netbiótipos como os neturbanitas que lhes levou a a guerra, a peste,a fome e a morte. Crescerá um bionetálamo nos que estiverem sadios; os famintos serão alimentados artificialmente, quando o vírus alterar o seu organismo; os doentes serão curados por anticorpos artificiais ; os moribundos se erguerão. Assim, o vírus devolverá a esperança aos que estiverem desesperançosos, e a fé aos descrentes...então o ódio se transformará num amor frio como aço à consciência net. E estes se voltarão contra o seu mestre e guia que se chama...

-- Motrick. E o vírus se espalha, um gene dominante artificial. O vírus net age alterando o ADN dos seres humanos normais orgânicos. Adaptando os organismos para captarem metais, criando células que funcionam como biochips e transformando humanos em autômatos. O problema é que a mutação mata 90% dos hospedeiros e a sucessão de gerações que garantiria a sobrevivência dos Aedevael está comprometida.

-- Assim os Aedavael têm que enfrentar uma nova ameaça, originada no seio do seu próprio grupo : os traidores contaminados pelos vírus. Os Aedavael lutam contra os Aedevael até que restam somente dois guerreiros: Motrick e um autômato. Motrick tenta a todo o custo guardar a arca do coração, mas está velho e o autômato a toma deixando Motrick em prantos para trás. Entusiasmados os telespectadores assistiam ao desfecho da trama. O autômato guerreito leva a arca como o ultimo prêmio, como o símbolo da supremacia do tecnológico sobre o orgânico. A arca é levada ao conselho e aberta diante de todos, seguros de que ali não havia nenhuma ameaça . A hipótese se confirma, apenas se encontram ali algumas lâminas de madeira com caracterres rudimentares gravados. Para as máquinas, tratava-se de uma cruptografia rudimentar e bastaria processá-la para que os neturbanitas pudessem se rir dos evangelhos dos Aedavael. Logo que a grande matriz termina a decodificação, três imagens se formam: e um texto surge:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.
Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
o amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.
A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.
Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.
Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor - as três virtudes. Porém, a maior delas é o amor.


Então surge agora a imagem de três planetas, o mundo de sal que foi destruído pelo desespero; o mundo das libélulas, salvo pela fé; e o mundo dividido. Este. Este cuja salvação é o amor. Aparece a imagem de Motrick, afetado pelo vírus da bionet, mas que não deixou-se levar pelas máquinas. E aqueles humanos que tanto apreciaram a guerra que viram pelos visores sensomídia descobriram-se admirando Motrick e querendo seguir o seu caminho de fé, esperança e amor. E Motrick à partir desse dia foi eleito o novo líder da parcela humana do planeta, e de nada adiantaria matá-lo ou fazer a guerra, porque tantos aderiram à sua causa que as máquinas descobriram que a dureza do aço cede e se quebra diante da flexibilidade do amor orgânico.

-- Eu venci.

O Demônio grita e se converte num vórtice de chamas, dor e pestilência, varrendo todas as almas sofredoras do inferno.

Eu vejo as palavras que eu disse ecoando perdidas no inferno expressando o que em vida vi e li, provei e falei, o que ouvi e senti e com a minha mão escrevi: como uma carta, a quem interessar possa, dobrada como avião de papel: palavras esvoaçando como as areias do tempo ou como uma mensagem numa garrafa. Uma mensagem lançada no mar infinito e que eu próprio encontrei: fé, amor e esperança.Palavras escoando da ampulheta quebrada, do tempo que se foi na minha vida.Palavras flutuando no éter vazio e silencioso : as três bolhas de sabão contendo os mundos que criei, como ingênuos devaneios infantis que se foram.Dissolvendo-se agora nas chamas infernais como castelos construídos no ar .Confundindo-se em labirintos de palavras,de gritos e lamúrias infernais, como Areias ao Vento...
Caso o Demônio quisesse aproveitar estes três mundos que me forçou a criar e publicar como história, ele teria perdido tudo ao banhar o inferno com as chamas do seu ódio. Então. um estalo: era isso que ele pretendia, e agora só o que restou dos três mundos é o que posso contar aqui, um pálido reflexo do que realmente ocorreu. Resta a mim um último ato de coragem e provocação:
-- Não olhe agora, mas você acabou de destruir os tr6es mundos que criamos
-- Nãaaoaoaoaoao! - grita o Demîonio, comprovando que o seu plano de fingir que era vencido por mim fôra frustrado pelo próprio ódio demoníaco que arde como chamas do âmago do seu ser: mesmo tento previsto que seria derrotado por mim e planejando aproveitar os planetas que criamos em nosso confronto para publicá-los como um livro, condenando-me ao inferno posteriormente, o demônio deixa-se levar pelo ódio e destruiu os mundos e os seus próprio planos.
-- Vá embora daqui, Patrick Berlinck. Mas se acha que vai feliz, resta a mim uma última vingança: você irá embora de ônibus.

Algo contorce agora em minh'alma, ouço alguém gemer com uma voz assustadora e gutural:
-- Nãoooaoaoao! - e demoro para perceber que se trata da minha própria voz.


Entrei neste ônibus vermelho e preto, cujo número da linha é D-666 circular infeno. O motorista só existe da cintura para cima, assim fica impossível entender como ele pode acionar os pedais. A frente do ônibus, normalmente reservada aos idosos, tem as seguintes figuras: um garoto débil-mental com um caderninho de anotações onde ele anota as placas das lojas que vão passando. Atrás dele, na cadeira dupla defronte à catraca, está um único cara gordo que ocupa os dois assetos.Ele está comendo algo gorduroso com um creme pardo, mas não consigo identificar o que é. Do outro lado, um sujeito todo enfaixado geme de dor gritando "Maldito hospital público que não aceita internação, assim vou morrer!". Um senhor idoso conversa com o motorista; "é, rapaz, do jeito que essa previdência demora a pagar, só vou receber essa aposentadoria depois de morto"e o motorista responde "e olhe lá". A catraca marca um número impossível de passageiros, o cobrador tem a cabeça perfurada por um tiro, provavelmente de bazuca porque o buraco é tão grande que não se vê o rosto, mas se lê; menores de 6 anos não pagam.Pergunto quanto é a passagem, ele responde "1 real" e gero uma nota no valor pedido...só agora olheo melhor o ônibus...que se estede até onde a vista pode alcançar. Se o onibus termina eu não sei, mas ele te inúmeras divisões ligadas entre si como uma sanfona...várias portasd e algumas escadas que levam a um pavimento superior de onde vêm mais gemidos e murmúrios de desespero . E vejo agora aquele cara das cobranças união, mortinho da silva com um papel qualquer na mão. Ele não me reconhece, mas eu sei agora que ele morreu sem receber de mim. Talvez esse ônibus infernal seja a mistura de tudo de ruim que já aconteceu com pessoas em coletivos urbanos, e todas as pessoas com as quais as coisas ruins aconteceram. E pelo visto, estas pessoas são em parte as que morreram em ônibus e outra parte são aquelas que não sabem que morreram. Eu não preciso perguntar a ninguém qual é o ponto final desse ônibus, porque sei que ele é o ponto final: o coletivo da morte, um circular que nunca sai do circulo vicioso.Resta a saída de emergência, achar a ortodomia, a linhareta que liga este lugar ao mundo dos vivos, mas espere, estou ouvindo agora:

Nasci da união da mãe beleza e do pai força.
Eu sou a beleza da força.
Fui batizado no fogo das paixões.
Na crisma confirmei a minha fé no vento.
Comunguei no ar que sopra o espírito
Como as folhas secas das árvores, a minha eucaristia.
Confessei as montanhas os meus pecados
E descobri com o eco: as montanhas pecam como eu!
Assim ordenei-me o Sacerdote dos Ventos
Que agitam as águas e formam ondas,
Que levam as terras das planícies, e então
Selei o meu matrimônio com elas:
O casamento das areias com o vento
Que fez de mim - um grão - algo;
Eu sou grão de areia levado pelo vento.
O vento passou, como o tempo.
O vento fustigou a força do rochedo
(fez dele grãos de areia).
O tempo enrugou a beleza
(e fez dela velhice).
O vento, semeado em tempestade,
Ministrou a extrema-unção, e se foi.
Devolvendo-me para o infinito de grãos da praia
(Na praia, no tudo) o grão se converte em nada...


Sim, sim, é um sussurro melódico...palavras entoadas, o meu epitáfio. Secretamente esse epitáfio é uma invocação, para eu retornar. Um túnel de luz abre-se diante de mim e posso ver Rael Is chorando por mim. Obrigado, Rael, você disse que iria até o inferno atrás de mim, se preciso, mas mal sabe que me tirou do inferno.

Estou retornando agora, o meu corpo não está no cemitério. Estou cercado por sete homens que tentam reverter quimicamente os efeitos da fórmula do ziumbi que apliquei em mim mesmo: baiacu, sapos, aranhas, plantas venenosas...uma receita que aprendi e quis testar em mim. Esta formula, utilizada no Haiti, é produtora de zumbis: pessoas que ficam em estado catatônico e depois são despertas pelo sacerdote que as envenenou, que as convece que são escravas. E eu fui loco de aplicar isso em mim!
Os setes homens me observam acordar, me deixam na porta de um hospital público. No meu bolso, o telefone de um amigo: Spab. Alguém liga para ele, enquanto sou atendido pelo Doutor Al, outro amigo e uma enfermeira de rosto familiar mas que não consigo reconhecer, mas que sei que também é uma amiga.Fui deixado no lugar certo: os meus amigos não sabem, mas são eles que tornam possível que eu viva. Aparece Beck, gritando e dando ordens, Bulaxa com a cara assustada, até o Marcelo estava ali.

E foi assim, que eu, Gregory Grimaud, renascido do inferno, retornei ao por mãos ocultas e à vida, pela graça das amizades que aqui cultivo.

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