Areias ao Vento
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O Livro dos Mortos 11

O Livro dos Mortos 11

O mundo dividido I




Agora é a minha vez, eu digo a mim mesmo. Mas este eu nào sou eu, mas é ele. Ele - que agora sou eu - tentou me atrapalhar no nosso duelo assumindo as formas dos meus amores e dissabores e agora assume a forma do meu pior inimigo: eu mesmo.

-- Este é o mundo dividido. Ele é dividido entre os que tem e os que não tem acesso à tecnologia. No mundo dividido tudo tem o seu preço: aqueles que querem viver em sociedade, devem aceitar a simbiose com a bionet, um imenso organismo tecnológico - evoluído das primeiras experiências com chips de material orgânico - que criou vida. O seu corpo é um imenso hardware planetário, e a sua mente é uma rede que se estende até os cérebros humanos. Sim, os 90% do cérebro humano não aproveitados foram tomados pela bionet. O bionetálamo se desenvolve logo nos primeiros anos de vida e passa a operar paralelamente como cérebro orgânico. Quando os homens dormem, os seus netálamos se unem na rede bionet e, desta maneira, todos sonham a mesma coisa e todo o conhecimento é dividido. Este homens não têm fé: cultuam apenas a grande-mãe , a matriz bionet; estes homens não têm esperanças, as suas vidas são programadas desde que nascem; este homens não sentem nada, apenas cumprem um protocolo de cooperação mútua. A dor foi abolida, o sofrimento se extinguiu, não são mais necessários médicos, porque o bionetálamo recuperou o grande dom perdido da regeneração. Assim, quando uma pessoa se fere gravemente, a biocélula substitui o tecido lesionado, um braço, uma perna, um órgão; todo o corpo, se preciso. Gradualmente, à partir do momento em que a pessoa começa a envelhecer, as suas células vão sendo substituídas até que a carne é totalmente trocada por material artificial e o orgânico se torna sintético. A imperfeição se transforma em perfeição e o conselho formado por autômatos imortais decide que os humanos normais devem se perseguidos por máquinas de caça.

Ele -que agora sou eu - volta o seu olhar maligno para mim...as chamas da morte e perdição faiscando e tremulando no seu olhar. E eu sei que é a minha vez, no jogo de construir mundos.

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