Areias ao Vento
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O Livro dos Mortos 10

O Livro dos Mortos 10

O mundo das libélulas




Eu tenho consciência de que, se perder agora, serei derrotado. É preciso que eu vença esta etapa da disputa, para que na próxima haja o desempate.
-- Agora é a minha vez - digo ao Coisa-ruim observando o pequeno orbe branco flutuando diante de nós como uma bolha de sabão. - Este que se forma perante nós dois é um pequeno planeta azulado. Neste planeta não há fome, não há meséria, há fé ...fé nos frutos que vem das gigantescas árvores de folhas multicoloridas. Nestas árvores mora o povo alado Arkanth, um povo díptero e colorido, de asas translúcidas, que se alimenta de seiva e pólen e enxerga o espectro ultravioleta. Assim, para eles, tudo é luz.
Uma esfera azul com linhas multicolores roda e transla à nossa volta. O Demônio assume a face da minha avó e fica me olhando fixamente enquanto as palavras parecem brotar da sua boca.
-- Mas toda a luz projeta a sua sombra: a prosperidade sempre acarreta a miséria, onde quer que surja a inteligência que denominamos humana. Conforme a população Arkanth cresce, as suas vorazes larvas devoram mais e mais folhas, as mesmas folhas que alimentam , juntamente com seus insetos parasitas, as terríveis libélulas gigantes, Dravo. Os Cavalos do Diabo, carnívoros, passam a devorar os Arkanth em seus casulos, antes da metamorfose das larvas em seres adultos. Desta maneira, a população Arkanth está envelhecendo rapidamente e diminuindo em número. A fé se torna,agora, descrença.
Eu vejo terríveis cenas de morte, os Arkanth, seres tão belos, lutando no ar com as libélulas gigantes. As libélulas atacando os Arkanth ainda eu suas crisálidas, comendo a seda e ferindo mortalmente as larvas em seu interior.
-- A fé se renova quando os anciões se reunem formando o primeiro conselho Arkanth, dedicado não ao planejamento do extermínio do inimigo, mas ao conhecimento das suas vantagens e fraquezas. O conselho decide que os próximos Dravos capturados serão analisados. Foi assim que eles descobriram que as necessidades dos Dravos são as mesmas que os Arkanth: alimento, abrigo, reprodução. Concluem que quanto mais a população Arkanth cresce, mais as suas larvas comem as folhas das árvores, escasseando o alimento dos Dravos. A solução vem, e a fórmula para ela é a convivência harmônica.
-- Apesar da nova diretriz, quando os Anciões vão soltar os Dravos capturados para retornarem ao grupo, um deles os embebe com um poderoso éster de um ácido da mais bela e perigosa flor. Os prisioneiros libertos levam morte ao grupo, está feita a vingança. Milhões de Dravos morrem. Enquanto isso, os Arkanth entram em desespero pois os seus guerreiros estão velhos demais para voar...as suas asas translúcidas estão secas e carcomidas e os Dravos, famintos e irritados, preparam o último ataque que irá dizimar as crisálidas destruindo a esperança no futuro; e trucidar os Anciões, o último foco de resistência.
Eu replico e complemento a criação do Demônio e restabeleço o equilíbrio:
-- Então um dos Anciões inventa asas artificiais, aplicando resina sobre as asas frágeis e reforçando com celulose, e uma tropa é formada. No horizonte já é possível ver as libélulas em formação se aproximando. A guerra é iminente, principalmente porque o Ancião à favor do venefício descobriu que as Dravo põe seus ovos em plantas flutuantes, nos pântanos abaixo do reino Arkanth e ele propõe um ataque às larvas dos Cavalos do Diabo. O novo exército com asas artificiais vai até os ninhos Arkanth( árvores e mais árvores com casulos pendurados nos galhos, como frutos ) repletos de crisálidas com Arkanth em estágio de metamorfose e passa a recolher os casulos vazios, que são postos na entrada do reino, numa grande árvore. As Dravo se aproximam e, em vez de atacar, passam a devorar os casulos de seda e, saciadas, vão embora. A descoberta de que as libélulas apenas atacavam os casulos para se alimentar e, por acas,o feriam as larvas em seu interior veio de um Ancião, o mesmo que inventou as asas e o mesmo que se tornou o líder dos Arkanth , que recuperaram a sua fé no futuro e prosperarm felizes no mundo azul de árvores coloridas.
O Demônio muda as suas feições diante de mim. Ele se parece agora com um fauno enfurecido...chamas se formam em torno e dele e...meu Deus, ....
-- Maldito seja!!!! - grita ele agora e o inferno se banha em fogo.
O fogo primeiro parece um vórtice, girando. Então as chamas explodem e passam a girar aleatoriamente em torno de nós. As chamas dividem-se em partículas, fagulhas, como centelhas realizando movimentos graciosos e assustadores. Agora passam a se concentrar, como um cravo e finalmente explodem como uma supernova e reassumem a forma demoníaca que as gerou.
-- Eu admito que você é bom e esperto, Patrick. Até agora, tentando atrapalhar eu assumi a forma dos seus sabores e dissabores. E você me provou que já curou as feridas dos seus amores frustrados, mesmo que ainda doam, e também perdoou aqueles que o feriram. Mas à partir de agora terá que enfrentar a figura que você na verdade mais teme: você mesmo. O jogo ainda não acabou, e mesmo que reste fé, a esperança se foi.

continua.

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