Areias ao Vento
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O Livro do Mortos - 4

O Livro do Mortos - 4


Vagando no Inferno acompanhado do mal



-- Então você é o Demônio.

-- Sim, e esse é o inferno. Que tal me conhecer pessoalmente e estar num lugar que tanto descreveu sem nunca conhecer.

--É uma derrota para mim. Voce me enganou. Me fez destruir tudo aquilo que construí, e mandar embora os meus guardiões.
-- Você sabe, Patrick, que é o que se espera de mim. A minha parte no jogo é mentir e enganar. Mas não só isso eu estou aqui porque você está aqui comigo . Algo o atraiu ao seu inferno logo que purgou os frutos dos seus sonhos e devaneios desta ultima vida.
-- Eu não me sinto culpado por nada. Jamais deveria estar aqui.
-- Tem mesmo certeza? Então vamos andar pelas parargens mais temidas do universo e tentar descobrir por que você está aqui.
É incrivel, mas estou andando lado a lado com aquele que é o ser mais temido e não sinto medo. Pelo contrário, ele é como um velho amigo que sinto ter reencontrado . Isso me perturba. A realidade em nosso redor parece mudar. Vejo agora uma pequena esfera e, nela um homem cercado por criaturas horríveis.
-- Quem é aquele? - pergunto ao Demônio.
-- Ele é o homem conhecido como Dante Aleghieri, está aqui porque definiu o inferno e se sente culpado por isso. Ele está no inferno que ele próprio criou.
Prosseguimos a caminhada no vazio infernal. Estou vendo agora um ponto com uma iluminação avermelhada e ouço gritos agonizantes.
-- É o homem que teve em vida o nome de Goethe. Está aqui por ter escrito o livro Fausto, onde o protagonista faz um pacto com Mefistófeles, eu. O autor do livro acredita com razão que inspirou homens a fazerem pactos comigo. E aqui está ele. Ali na frente está Oscar Wilde, pelo retrato de Dorian Gray.
-- Como você quer que eu o chame? Não quero invocar o seu nome que traz aquela terrível imagem.
-- David Jones está bom, ou simplesmente David. E não se preocupe com a minha imagem. Eu sou um ser mutável, e posso ser visto como o seu melhor amigo ou como a mulher que mais deseja.
Ele muda instantaneamente de forma, o meu rosto se transforma numa versão feminina, de beleza e apelo sexual inexplicáveis.
-- Agora é melhor que me chame de Cali. Como eu ia dizendo, no plano astral seja no umbral, seja no inferno, não existe propagação de som, portanto não há fala,ou diferenciação de línguas. Apenas há pensamentos, que, apesar de serem a lingua do universo, variam muito. Quem pensa igual, fala a mesma lingua, constrói para si a mesma realidade e se avizinha dos seus semelhantes.
-- Isto quer dizer que estou aqui por ser um escritor.
-- Sim, e por ter escrito ao meu respeito e sobre o meu reino. A sua consciência o trouxe aqui.
Agora eu me assusto. Por nós passa uma criatura gritando e vociferando imprecações, envolta por uma realidade que poderia ser descrita como um escritório caótico. O estranho ser é como um xifópago, da cintura para cima o seu tronco se divide em dois seres que executam difrentes tarefas simultaneamente. Eu reconheço o seu rosto, ele é aquele que em vida a eu conhecia como Eduardo Júnior, e cujo nickname era Beck .
-- Oh, não! Júnior estará morto?
Não. Apenas sonhando com o local onde ele trabalha e faz o serviço de dois, por isso o seu corpo se divide. Toda a noite ele vem aqui porque julga o seu serviço "um inferno" e acha o seu chefe "ruim como o capeta" enquanto sonha com a próxima jornada diária na labuta. Muitos são os caminhos que trazem ao inferno e sete são as suas portas.
Voltamos a caminhar, eu e ela. Vejo João batista, o meu colega de escola que me batia diariamente, especialmente quando eu o vencia batendo figurinhas. Ele estava chorando, porque fôra condenado a bater figurinha comigo e sempre ganhar, como queria mas não conseguia em vida. Cada figurinha que ele ganha mostra uma cena miserável do seu pai alcoólatra batendo nele e na mãe, dele prórpio usando drogas ou da namorada que viajou para o japão e o traiu com outro e outro e outro. Pobre coitado.
-- Enfim, assim terminam aqueles que em vida perpetraram o mal. Alguns ficarão aqui por toda a eternidade, porque se perdem num circulo vicioso, ourobouros, lemniscata: o infinito , o eterno, o universal pode ir contra o ser humano. Mas para voc6e, Patrick, o que está reservado é muito melhor do que isso. Mas tem um preço.
-- Preço que não me disponho a pagar.
-- Tem certeza? então venha, que agora vou lhe mostrar o fruto da sua obra em vida.


continua.





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