Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Motel palácio I

Motel palácio I



A rádio na madrugada deixa de tocar rock para tocar música de motel.
Alarmes soam ao longe... na rua, uma viatura da polícia. E eu não posso dormir, eu só fico aqui, eu fico só aqui. Só aqui.
Pego algumas fitas cassetes. Modelo ultrapassado, a forma superada. Mas não o que elas têm a dizer. Algo em comum comigo?
Palavras ditas, inauditas, ecoam na memória. Coincidem com a música que toca,

Ela me pergunta: "se você é tão esperto, porque não é médico? e eu respondo "porque sou esperto".
Numa roda de amigos, eu provoco:" já fui ao motel mais vezes que todos aqui juntos".Eles duvidam, eu explico que trabalhei sete meses num motel.

Bocas que se beijam são bocas que se calam. Olhos então se fecham e nada vêem: o amor cega a razão. As mãos se entrelaçam como que querendo soldar a relação; mãos dadas não trabalham, nada escrevem. Somente as musas distantes inspiram .

Ela arrumou um emprego e não me deu endereço. Eu apareço lá, do nada, de onde vim. O nada que eu sou para ela. "Como você me descobriu aqui?". "Da mesma maneira que descobri as suas omissões e mentiras" foi a resposta que engoli mas não dei.

Corpos que se movem fazendo amor não se locomovem. Vem e vão, vão em vão. Para um lugar que nunca chegam porque nunca saíram do lugar.

Eles me dizem que o passado dela é sujo, e que fotos comprovam os seus erros. Eu respondo que a única mulher confiável é aquela que sabemos não ser.

O calendário é um triste lembrete de que as contas vencem mensalmente. Elas nos vencem mensalmente.E no fim das contas, só haverão contas.

Eu esqueço do aniversário dela. Ela não me perdoa. Nem eu. O que ela não sabe é que eu esqueço do dela, assim como do meu. E afinal de contas, o que importa não é quando, mas se você se lembra. Aniversários são contas que vencem anualmente e eu estou sempre em débito.

Traições são ações mentirosas. Tentativas de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tempo perdido, quando há flagrante.

É uma madrugada chuvosa, estou defronte ao prédio dela. A princesa trazida numa carruagem: o carro de Hermes mostrando a mim toda a verdade sobre a vida. Atrevida!
Ela diz que nunca atrapalharei o seu novo romance. Mas caminhadas deixam rastros: ponho a mão no interior da bolsa aberta e um cartão indica o caminho até o caçador que virou caça.

O tempo passa, a noite avança. Quem espera a noite passar sozinho, sempre alcança um amanhecer triste.

Ela me diz que se não a quero, é porque não sou homem. Eu respondo que, para ela, então realmente eu não sou homem.

Baladas na madrugada, letras insensatas rimando sem métrica como fundo inspirador para casais no fundo do poço desesperador do sexo, num motel feito para ser um palácio à beira da estrada ,onde eu gerencio sozinho as minhas lembranças.

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