Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

O Livro dos Mortos



Parte 3: Entrando no inferno




Aproximo-me da mesa em torno da qual reúnem-se seis homens, e junto-me a eles



--Contando com você, estão aqui sete homens, sete nomes, as sete maneiras com as quais você viu e sentiu o mundo físico quando vivo. O primeiro deles é Gregory Grimaud: o vigilante que governa com o elmo, representante da sua busca por conhecimento. O segundo é Ninguém, o seu lado fracassado e não-reconhecido (se ninguém tivesse nome, seria Gustave, o artista plástico frustrado em seu interior, porque você é incapaz de desenhar com traços, e assim desenha com as palavras). O terceiro é Ricardo Berllin, o seu lado de sucesso, o empreendedor. O quarto é Nemesis, a sua vingança contra o mundo que derrotou Gregory , transformando-o em Ninguém ao inves de fazer dele Ricardo. O quinto é você na encarnação anterior , o seu Carma, e é uma mulher cujo nome não lhe foi permitido saber ainda. O sexto é Inconnu, o desconhecido que o aguarda no futuro; de certa maneira, este nome também não é um verdadeiro nome, nem o seu semblante pode ser visto, mas ele é a oposição do seu Carma.O sétimo é você, a soma dos anteriores e o seu gerador: P.B., o nome que expressa aquilo que a sociedade ditou que seria o seu eu para o mundo externo, mas que não equivale ao seu mundo interno.
--Você quer dizer, que todos eles são lados meus - estou afirmando isto para a minha réplica, o meu guia, mas eu já sei a resposta.
-- Sim e não. Eles são projeções suas e para que você, P. como um todo, prossiga a sua jornanda nesta vida, deve estar coeso.- ele responde o esperado
-- Ótimo, então basta eu me reunir a essas "faces silenciosas" minhas? Então poderei descansar?
-- Sinto dizer que não. Eles representam o seu purgatório pessoal.
-- Como assim purgatório pessoal? Pensei que purgatório e inferno não existissem. - agora o desespero se paroxima de mim
-- Entenda que, em vida, a junção entre o que Gregory aprendia, o que Patrick tentava fazer e obtinha sucesso (Ricardo) ou fracasso (Ninguém) e a sua vingança por ter fracassado (Nêmesis)é o resultado do que você fazia desde a vida passada( a mulher sem nome) e que resultaria no desconhecido nesta vida se você não tivesse se suicidado (Inconnu). Você foi um escritor.
-- Pelo menos eu tentei.
-- E sobre o que você escreveu?
-- Sobre tudo.
-- E só contou a verdade nos seus escritos?
-- Não, claro que não. Escritores escrevem romances, romances são ficção e ficção são mentiras consentidas e consensuais.
-- Pois bem, o escritor não conta a verdade, deixa de afirmar que a realidade é uma grande mentira e a vida um grande jogo cósmico; o escritor cria novas mentiras e novos jogos...mentiras dentro de mentiras encobertas por jogos. Escriotres criam complexidade, distorcem a palavra, deturpam o verbo. Vocês criam realidades dentro de realidades, cidades dentro de cidades. Olhe agora a mesa em torno da qual sentam - vocês sete. Vê? Ela é um globo formado por sete cidades, pelas sete visões da realidade presentes nos seus escritos. Conforme você escrevia e era lido, as pessoas criavam sistemas de crenças baseadas no que aprendiam através de você. Não se esqueça de que a palavra de Deus no mundo material é manifesta num objeto material, na materialização da palavra...
-- A Bíblia Sagrada...
-- Exato, e qualquer livro, escrito depois dela que não siga estritamente os seus preceitos e idéias, é uma deturpação do Verbo, e cria realidades paralelas. Você é responsável por sete dessas realidades, onde milhares de pessoas vagam em busca de uma verdade que não existe ali, simplemsmente porque tudo foi uma ficção criada por você .
-- Oh, não e o que preciso fazer para remediar o mal que causei?
-- É preciso purgar tudo o que você construíu de fútil, entrar nas sete cidades atavés do seu portal . Mas para entrar é preciso vencer o guardião.
-- guardião? - estou perguntando, mas também sei a resposta.
-- Sim, você o conhece como Pangella, o palhaço do mal.
Naquele instante, o medo se passou de mim.
-- Eu já consegui vencê-lo uma vez, e ainda era uma criança. Eu posso derrotá-lo novamente.
-- Mas terá que transpor o portal Glannmore.
-- Glannmore?
-- Você o denomina "A Casa dos Meus Sonhos".


E aqui estou eu diante da casa. Desta vez ela aparece para mim em estilo vitoriano. Há várias janelas enormes voltadas para a fachada e eu posso ver um vulto me observando, sem discernir quem ou o que são.
Eu abro a porta com dificuldade, ela range como um velho canceroso agonizando.
Vejo apenas brumas, mas sinto cheiro de relva. Vegetação.
As brumas cedem um pouco, levadas por um zéfiro congelante vindo de lugar algum. Um bosque. O interior dessa casa desta vez é um bosque envolto por brumas.
Entre as árvores, vejo uma cadeira. Nela, está uma mulher. É a minha mãe, mais jovem e muito bela. Está em trabalho de parto. Dela(oh Deus!), dela sai uma mão com uma luva vermelha e unhas-garras compridas da mesma cor decepam-lhe a cabeça. Um dos braços de mamãe segura a sua capita decepada . No lugar do crânio dela, surge a cabeça de Pangella, o rosto alvo e lívido como o de um morto, o nariz de cereja rubro como sangue inocente derramado, o humor dos olhos negros como a morte e pupilas brancas de gelar a alma. Ele usa o habitual chapéu- coco. dois braços seus se projetaram através das orelhas da minha mãe e as suas pernas saem do meio das pernas da minha projenitora. Ele está gritando para mim:
-- Oláaa, irmãozinho!!!
estou me aproximando dele, o ser hediondo que veste a minha mãe e o arrasarei com poucas palavras
-- Por toda a minha infância, você me persegui. Você foi e é o meu pior pesadelo, aquilo que julguei que nunca fez ou faria parte de mim. eu venci você no plano físico quando entendi isso: você é um enigma disfarçado de terror, é um terror enigmático. Porém restou um último enigma que desvendei agora, graças a esse desliza seu.
-- Eu vou te levar pro inferno, se desgraçado...- ele está sibilando para mim olhando-me com uma cara terrível de se ver.
A cabeça da minha mãe começa a gritar:
-- Patrick , foge, ele vai fazer a mesma coisa com você!
-- Esquece, Pangella. ter saído da minha mãe denunciou o seu enigma. Se você saiu da minha mãe, você sou eu.
Agora ele está se despindo da pele de mamãe e está caindo de joelhos diante de mim.Ele está passando as mãos vermelhas com unhas no rosto e por baixo da maquilagem eu posso ver; o meu próprio rosto!
-- Você é a forma dos meus medos, Pangella, mas eu nào sinto mais medo...então você não teria motivo de existir. Volte à parede, volte a ser um quadro sinistro com um paspatur de veludo vermelho, como sempre foi. Eu o concedeno a ficar no hall de entrada de Glannmore, A Casa dos Meus Sonhos


Agora estou transpondo o outro extremo de Glannmore. Parece que alguém me chama, mas tenho uma missão importante a cumprir. Preciso destruir as sete cidades. Do outro lado da porta há uma cidade , um meio termo entre uma metróploe ocidental e oriental. É impossível ler o que dizem as placas. É noite fria, madrugada acho. O céu está repleto de nuvens escuras, a lua cheia emite os seus raios através dos cúmulus, quando eles se movimentam com o vento.Pessoas sinistras me seguem lentamentenete, de dentro de carros que ora parecem caixões, ora parecem mausoléus móveis...mas não consigo ver quem conduz os veículos. Pessoas estão passando por mim, algumas até me atravessam, mas são todas sombras sem definição. Acredito que elas me vejam da mesma maneira que eu as vejo: sombras. Atravesso a rua. Há uma banca de jornais, quando vou olhar dentro, ela é todo um reino de revistas em quadrinhos, centrenas de quilômetros de estantes com prateleiras repletas de histórias em quadrinhos.
esta certamente é a cidade dos meus sonhos mais infantis, a cidade frustração, a cidade de Ninguém. O meu gosto pelos quadrinhos vem do fato de admirar o que não sou capaz de fazer: desenhar. A banca simboliza isso. Eu a ignoro, e a realidade em torno de mim começa a se desfazer.Fim da primeira cidade.


Continuo caminhando , vejo um automóvel passar em alta velocidade, com uma garota linda no lado do passageiro. Ao volante , uma versão perfeita minha. A garota me olha espantada, eu estou dizendo:
-- Você não existe!
-- O Que?- ela está se perguntando e virando-se para a versão Ricardo de mim mesmo.
Quando Ricardo cruza os seus olhos com os meus, ele perde o controle da direção e capota o carro. Chamas, e a realidade volta a mudar. Fim da felicidade, segunda cidade.
É uma bilbioteca, ou uma livraria. Enfim, é a minha vida. A iluminação é penumbral, estantes enormes atulhadas de livros se perdem nas alturas e na escuridão. Eu me sinto aconchegado nesse ambiente.Estou caminhando em direção a uma única fonte de luz e ali estou eu mesmo escrevendo num grande livro.
-- É o meu Diário. Areias ao Vento. eu estou escrevendo o que você está fazendo agora.
-- É mentira.Você está escrevendo há muito tempo, mas não está escrevendo o futuro, mas vivendo de passado, Gregory Grimaud.A sua única função é me revelar a verdaede, pesquisar por mim, mas não pode escrever nada ao meu respeito que ainda não tenha acontecido. Feche esse livro e me traga o livro que resume toda essa biblioteca .
Quando ele/eu Gregory fechou o livro em que escrevia, vi o título da capa: Areias ao Vento . ele me trouxe um livro repleto de crânios entalhados. Era o Livro dos Mortos. Estou abrindo agora as suas páginas e a realidade muda como se fosse uma nuvem...levando a cidade -biblioteca, a terceira cidade embora... e eu vejo uma moça linda trancada numa caverna iluminada pela luz de uma única vela. Ela está escrevendo um manuscrito. ela sou eu. Está me olhando e sorrindo, mas eu digo:
-- Você para mim é passado, você morreu.
Mas ela responde;
-- E você para mim então é o futuro, o que nunca existiu, o desconhecido.
E mais uma realidade se desfaz: o meu passado cármico,a quarta cidade levando consigo o meu futuro destino, que é outra cidade, a cidade desconhecida, a quinta cidade. A cidade que surge agora tem vida, pessoas trombando e eu P. estou num coletivo. Todos estão rindo de mim, por eu estar no ônibus.
-- Estamos todos no mesmo barco. Mas se ele afundar, eu sobrevivo, porque eu sou real e vocês, ilusões.
Todos estão gritando em pânico agora. Mas eu gargalho enquanto a sexta realidade-cidade, a realidade se desfaz e o ônibus cai no vazio que é nada e tudo ao mesmo tempo.
E eu sei que o nada é o que me resta: no nada em que nem mesmo ninguém eu posso ser, só resta a vingança, Nêmesis . Mas eu ignoro a vingaça e desfaço o vazio da sétima cidade vazia em meu coração.
E retorno ao Umbral onde o meu ego me aguarda gargalhando.
-- Por que você está rindo?
-- Porque você fez exatamente o que eu planejei, Patrick. Você se desf6es dos seus guardiões, purgou os seus pecados e agora está diante de mim.
Agora eu gelei a minha alma . Como eu pude ser tão burro? Se em torno da mesa havia seis facetas minhas, comigo o sétimo P., como poderia ainda exisir um oitavo Patrick, um Ego?
-- Muito prazer em conhecê-lo, P. Eu estava ansioso por encontrá-lo.
Ele está, mas eu não.Eu sei quem ele é e eu sei onde eu estou. E que Deus tenha piedade de mim, porque esse ser é o Demônio e eu estou no Inferno.


Continua .

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