Areias ao Vento
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O Livro dos Mortos Parte 2: no Umbral

O Livro dos Mortos



Parte 2: no Umbral




Escuridão. Dentro e fora de mim.Fica difícil entender a relação entre o que sou eu e o que é o ambiente em redor. A impressão é que eu sou toda a escuridão e que a escuridão é tudo o que eu sou.


Estou sentado na posição de lótus.Meditando. No páteo do edifício onde cresci, na capital paulista.De uma janela uma menininha me observa. Eu posso sentir que estou sendo observado mesmo com os olhos fechados. Uma habilidade inata, aperfeiçoada e mantida em forma naquela época. "Ele está meditando, meu bem", dizia uma voz efeminada, porém masculina, à menina."Conversando com deus, se interiorizando".Mas eu penso que se realmente estivesse obtendo sucesso na meditação, jamais teria ouvido aquele diálogo.Eu sou apenas um garoto de treze anos. Eu preciso de um guru,um mestre.

Estou na academia , praticando caratê; "It, ni, san, chi, go, roku..." o nosso mestre, estuda no mesmo colégio que nós. Ele deveria ser um modelo para nós, garotos de 15 anos, seguirmos. Mas então soubemos das brigas fúteis, de que bateu o carro. Traiu a namorada. A admiração se dissolve entre o medo, de saber que alguém tão forte se voltava para o lado ruim, e a desilusão, de concluir que talvez ele não seja tão forte assim.

A minha mãe cai diante de casa. Bate a cabeça na guia. A sua nuca se abre, o sangue jorra. É madrugada, ela está embriagada. Por sorte eu ouço tudo e parto em socorro. O motorista do táxi que a trouxe tenta debil e inutilmente levantá-la, mas não suporta os 86 quilos de gordura acumulada em décadas de sedentarismo. Eu a levanto e ponho no táxi. Não me importo se o sangue vai ou não sujar o banco, aliás prefiro que suje para que o motorista aprenda a acompanhar direito os passageiros ébrios. No hospital, o médico sugere que eu auxilie na sutura, porque não há enfermeiros. Eu tenho 25 anos e não sou mais um garoto, sou o homem da casa. Em que momento deixamos de ser filhos de nossos pais e passamos a ser pais de nossos filhos? Não há uma transição, um limite, um ritual que marque a mudança da infância para a idade adulta; apenas existe uma data-idade arbitrária e externa que não reflete nada do que acontece no seu âmago e quando você mais precisa de alguém que lhe indique o caminho...puf! Como por mágica você está cercado por crianças afoitas que lhes ensine o caminho : e você descobre que você já é um adulto.

ShizuoKa, Japão:1996. Estou na linha de montagem de uma fábrica de automóveis. Alguém me lembra, em português, que o meu apelido é Mister Bean; o objetivo do apelido é me humilhar, mas eu prefiro lembrar que aquele humorista é um gênio. Cenas da minha vida vêm à mente; estou 11 quilos mais magro, o que significa que ainda sou um sujeito grande, não preciso temer agressões maiores do que brincadeiras.Estou exaurido. Como vim parar aqui? Talvez nem eu mesmo tenha certeza. Salvar a família que não me salvou?Talvez.O líder se aproxima e ri "quem manda não saber falar japonês? Se soubesse, seria líder como eu e não estaria aí morrendo".Então eu me lembro do meu avô japonês me forçando a jogar xadrez com ele e rindo quando ganhava; até que um dia eu ganhei uma partida, e outra e outra, e ele parou de rir e de jogar xadrez comigo. Mas ele nunca me ensinou japonês.E quando eu precisei de um mestre na língua, ele não estava entre nós, tinha falecido fazia um ano.

-- Patrick. Grimaud! - chama uma voz na escuridão
-- Quem?
-- Eu, o seu guia na sua viagem pelo universo que vocês humanos denominam além-túmulo.
-- O que aconteceu, onde estou?
-- Aqui, onde, como, quando e quem se confundem. Você está morto e eu o trouxe para as trevas do Umbral. Aqui, significante e significado são a mesma coisa: os seus pensamentos e lembranças moldam a realidade como num sonho, ou pior: como num pesadelo. Graças a mim, você não está agora mergulhado num mar de lembranças.
-- É tão escuro aqui. Estou no inferno.
-- Hahahaha! Você traz o inferno dentro de si?
-- Claro que não.
-- Pois bem, então não se verá no inferno porque na vida pós morte, pensamentos moldam a realidade. Aqui, não há diferença entre o que está dentro de você e o que está fora. Não há diferença entre palavras e pensamentos nem entre pensamentos e ação. Mas não se preocupe, que se você for ao inferno, está com a pessoa certa para tirar você de la', ou melhor, para você não mais se infernizar.
-- Então, se não existe inferno mas nós podemos ser o nosso inferno, então o Diabo não existe.


Eu falo isso,e uma figura medonha se avoluma e eu sinto um terror-dor-medo obsceno se apossando de mim e de toda a realidade em torno.



-- Pare com isso, não chame o nome dele ou ficaremos cercados por todas as entidades que representam-no. Eu acabei de explicar. Aqui existe aquilo o que se pensa, aquilo que se carrega dentro de si: ele é mais real no Umbral do que qualquer pessoa da Terra, e é o maior poder deste lugar.
Eu tento ver o rosto do meu interlocutor mas ele parece se mesclar às sombras.Eu percebo que ele me olha, e aquela figura obscura se aproxima... e eu vejo algo que me choca:



-- Eu mesmo.Eu sou você- disse eu a mim mesmo.
-- Como assim, você é eu ou eu sou você? Deus, estou começando a usar os verbos errados.
Subitamente, uma luz fortíssima aparece na escuridão e banha a mim e a mim.É uma sensação de plenitude-união-êxtase.
-- O que é isso...é maravilhoso!
-- Deus. Você invoca uma centelha divina quando pensa NELE.
-- Mas afinal, quem é você?
-- Eu sou você, você sou eu, já disse. Basta se lembrar das reminiscências que acabou de ter. A vida inteira você procurou um mestre, alguém que o guiasse. Apenas encontrou-se sozinho, consigo mesmo. Eis-me aqui. Eu sou a única pessoa com quem você pode contar: você mesmo.
-- Entendi, mas é tão estranho.
-- Nada é estranho depois que se acostuma. uma imagem refletida no espelho não é estranha só porque não tem autonomia e não fala. Eu sou como uma imagem sua só que falo e tenho autonomia. Eu sou o seu ego. No Umbral sou o seu guia, sou o fruto colhido de todos os seus anos de estudo, de todas as décadas de busca pela verdade sem certezas. Condenso toda a sua sabedoria, de milhares de livos, de milhões de horas de questionamentos e estou aqui para ajudá-lo.
-- E o que devo fazer?
-- Apenas me seguir e confiar em mim. Vê aqueles seis homens em torno de uma mesa, como um oásis de luz em meio à escuridão?
-- Agora que você falou, vejo sim.
-- Você é o sétimo deles. Vamos que eles o esperam há uma vida.


Continua.

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