Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência


O Livro dos Dias, do Destino, dos Sonhos e da Morte


O Livro dos Dias é um diário. Nós que escrevemos esses diários virtuais conhecemos bem as dificuldades e os prazeres de escrever as nossas efemérides no espaço virtual da Internet.Os blogueiros nunca sabemos onde está o limite entre o particular e o público; entre segredos e boatos.As nossas palavras são jogadas ao vento como aviões de papel, lançadas ao mar de milhares de diários e weblogs como uma mensagem na garrafa: não sabemos quem irá encontrá-la. Por vezes, os nossos dizeres e afazeres se perdem no inferno enfermo, no espaço de palavras vazias da Internet; ou no tempo escasso dos visitantes que vêm - e vão - a nós com as horas contadas, correndo contra as areias do tempo escasso de suas vidas atribuladas. A liturgia das horas,e dos dias na internet é ditada por um grande íncubo que só fomenta o sexo; a Igreja da Libido é o maior sucesso da rede: todos procuram sexo, tudo é sexo mas ninguém se excita lendo você. O deus-calendário é um mega aglomerado de feriados e dias santificados, de diversão, resorts, flats, e parques temáticos virtuais: e ninguém se diverte lendo sobre você. A Vênus midiática rebola as suas ancas seduzindo os internautas com notícias comestíveis, copuláveis, uma concupiscência digital, uma orgia num mundo de novidades: a sua vida não é notícia, então ninguém noticia você ou o seu blog.Enfim, se você não falar de sexo, de notícias e de diversão, ninguém lerá o seu diário porque a sua vida não importa a ninguém além de você mesmo.E olhe lá.

No Livro dos Mortos , às vezes, a sua vida não importa nem para você mesmo. Se este é o seu caso , você é um suicida em potencial , e deve seguir um importante conselho meu: escreva uma carta de suicídio e mande publicarem postumamente no seu weblog que a sua morte se tornará um fenômeno de visitação. No Livro dos Mortos que é o entretenimento brasileiro, Cazuza, Raul Seixas, Getúlio Vargas e Jim Morrisson fazem mais sucesso mortos do que vivos. No século XIX e início do XX costumava-se fazer o Livro dos Mortos - fotografar as pessoas falecidas como se vivas, para que descansassem em paz: mais uma boa idéia, fotografar-se depois de morto para conseguir público. Afinal, o público brasileiro tem algo em comum com os urubus e hienas, não pode sentir o odor de carne apodrecendo que fica logo faminto. Ninguém se interessa pela sua vida ou pelos seus sonhos, porque a sua existência concorre com a dos outros, no mercado de trabalho, no mercado do sexo, no mercado da sobrevivência.Nota importante: isto é uma metáfora, não uma sugestão de suicídio; pense bem. Memento Mori: não é preciso se matar a si mesmo, todos inevitavelmente morreremos um dia.

O Livro dos Sonhos é mais do que uma obra freudiana. Passamos 1/3 das nossas vidas dormindo entre o sono e os sonhos. Uma pessoa com 28 anos de idade terá passado 9,33 anos de sono sonhando 4 sonhos por noite, isto é, escrevendo um livro com 13.621 sonhos esquecidos muito além de Freud, Jung, Adler, Reich...e que os índios Senóis da Malásia sabem como ninguém utilizar. Se você narrar os seus sonhos no seu diário, ninguém quererá ler. Porém, se forem pesadelos talvez o público carniceiro venha arrancar nacos do seu sofrimento.

O Livro do Destino é aquele em que se escreve o que ainda não aconteceu mas que provavelmente acontecerá, porque assim estava escrito e assim se cumprirá. Maktub.É o livro dos prognósticos dos seus dias, o seu horóscopo: aquelas previsões coletivas e massisficadas que tratam-no como um ser não-individualizado com um signo zodiacal tatuado na alma. E, na verdade, penso que não somos nada além desse aglomerado de ninguéns sem rosto na multidão. O livro do seu planejamento, do seu calendário de afazeres, da agenda é o Livro do seu Destino. Nele, você escreve hoje o que fará amanhã, e pode também escrever comparando o seu dia com as previsões do horóscopo. Lembrando-se sempre que você só será lido por exemplo, se estiver vivendo com os dias contados em fase terminal de alguma doença incurável ou coisa que o valha : as pessoas adoram o cheiro de necrose penicilina e formol a que recendem as últimas palavras e desejos de um moribundo. Se você for um detento, O Diário de Um Detento vende bem a idéia de miséria humana, mas isso todos já sabiam.E vende mais se você estiver no corredor da morte

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