Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Adeus mundo cruel; a Deus mundo cru...



Por que continuar indefinidamente esta vida até o seu desfecho natural se ela só promete - a quem tem a mínima visão da realidade - dor, sofrimento e dor? Eu já procurei a verdade na minha família, e logo cedo vi que não me bastava. Então busquei disciplinar o meu corpo e mente, busquei mergulhar dentro de mim, busquei Deus em todos os lugares nos recônditos do meu ser. E nada encontrei além do vazio de experiência que naturalmente se encontra num garoto e um profundo medo - que encontramos dentro de todos os seres, especialmente naqueles seguros de si e bem estabelecidos. Eu pratiquei Yoga por sete anos da minha vida, sendo vegetariano e,externamente, motivo de chacotas enquanto dentro da disciplina as obras aconselham a se desistir da empreitada espiritual na ausência de um guru que o conduza. Assim eu fiz, porque na minha vida a ausência de mestres e de quem admirar sempre foi um problema. E creio que seja um probelema do nosso século também. De maneira que passei a ser estranhado e ridicularizado dentro e fora daquele meio onde procurei uma explicação para o sofrimento deste mundo. Então eu busquei novas teorias nos livros enquanto permanecia escondido e esquecido nos cantos da escola. Ali mesmo eu buscava respostas e alento nos quadrinhos e em Júlio Verne, porque Ficção Científica era uma paixão grata na mesma medida que a realidade científica era ingrata. Evidentemente que comecei à acumular conhecimento, o que era de se esperar, mas como se sabe, o acúmulo de conhecimentos nada significa de bom porque a humanidade acumulou conhecimento mas não sabe como utilizá-lo para se salvar. E este era o meu problema, encontrar uma filosofia e uma prática espiritual que oferecesse resultados neste mundo sem me excluir dele como um santo esperando receber algo em outra vida enquanto me privava de tudo e todos, deixando espaço para aqueles que queriam realmente viver essa vida se preocupando com o inferno somente na outra: os pecadores. Aos dezoito anos abandonei o vegetarianismo e a postura espiritualizada, e, como já estivesse no ambiente de academias, trabalhei o meu físico para ficar e aparentar mais forte, livrando-me finalmente de certos estigmas e traumas da infância, como os apelidos e as agressões. Eu tinha uma namorada, falsos amigos que tinham e gostavam de exercer algumas facetas perigosas do poder e bons amigos verdadeiros com os quais simplesmente gostava de sair e beber. Mas à ninguém eu podia ou queria revelar a minha sede por conhecimento, verdade e transcendência , uma voracidade por respostas às questões que fustigavam o meu pensamento. Naquela época eu era um estranho e belo garoto surpreendente trajando um sobretudo e andando - a maioria das vezes sozinho pelas ruas de sampa. Auxiliei e salvei muita gente nesta época, nas ruas. Um dia uma cigana me parou, eu estava bem vestido, usando jeans, botas e uma jaqueta de couro. Não obstante ela adivinhou, quem sabe por acaso, quem sabe por outro motivo, que eu não tinha profissão definida. E isto era e ainda é uma verdade na minha existência; o capitalismo não me legou nenhuma tipificação social, não tenho profissão, não tenho rótulos, sou como O Louco do Tarô. A minha aparência e o meu curriculum vitae já causou muitos arrepios e dúvidas nas pessoas; simplesmente porque eu mudo como a lua muda de fases; e o meu corpo é todo marcado por estrias devido à isso. Assim, eu sou forçado - apesar de ter um porte físico privilegiado e adorar musculação - a esconder as marcas e cicatrizes da transformação e da instabilidade do meu corpo. Apesar da boa aparencia há algo no meu rosto que transmite o horror existencial que eu vivo, e há o signo da loucura, da dissolução da personalidade que causa um infinita dúvida em todos a começar por mim. Eu busquei tipos como eu na filosofia, e ali não encontrei respostas além da historicidade de fracassos sistemáticos da busca pela verdade; fracassos como os meus, os seus, os nossos. Desta(ou daquela) maneira estruturei uma forma básica de pensar, de falar, de agir, de viver que me norteou na busca mas que por si só não trouxe respostas. Apenas criei um padrão definido para esta indefinição entre corpo e estética, mente e filosofia, ciência e transcendência que marca minha existência. Isto me tornou conhecido e respeitado por alguns, odiado e despeitado por outros ( e outras). E é este o problema, quando quis buscar respostas nos outros, descobri que é difícil encontrar aqueles que estão por trás dos livros que tanto me ajudaram, atrapalharam, instigaram; na vida concreta do cotidiano as pessaoas são e estão perdidas, sem sentir e sem sentido, desesperadas, afoitas, desinteressadas e interesseiras . Elas só despertam em mim o desejo de ficar sozinho, de encontrar alguém como eu em alguma parte. Ou em parte alguma ; qualquer possibilidade, ou sem possibilidade; encontrar nada em lugar algum; não encontrar ninguém em lugar nenhum, etc. Então a filosofia não fornecia respostas, assim como as religiões; o ocultismo já era um caminho trilhado havia algum tempo, mas eu sabia que coexistia ali uma mistura entre verdades e mentiras, declarada e anunciada pelo próprio ocultismo, enquanto manifestação teórica da luta entre o bem/verdade e o mal/mentira. Novamente eu me deparava com aquele princípio inenarrável de que a verdade está dentro de cada um; e como ela, a verdade, é uma dama sorrateira e mutável; quando Isis é desvelada trata-se de uma coisa tão individual que permanece oculta dentro de cada um. Compreendi que nisto consistia o ocultismo e cheguei à várias conclusões maravilhosas sobre a trama de ilusões que forma a realidade. Não compreendi porque não morri naquele momento se havia decoberto todos os segredos do universo. Talvez eu estivesse errado e a alternação provocada pela leitura sucessiva de dezenas de livros esotéricos, de mitologia e religião, tivesse operado uma lavagem cerebral em mim. Percebi simultaneamente que buscar a verdade - o conhecimento - era uma paixão pathos, assim como a busca pelo amor. Acreditar e buscar o saber - filosofar - é amar a sabedoria ; da mesma maneira que acreditar e buscar o amor é amar o romance. E também percebi, dolorosamente, que o mesmo conflito entre bem e mal, verdade e mentira, presentes na busca do saber se transferia para a relação homem mulher - que é uma evolução cancerígena, uma metástase cerebral da relação macho/fêmea. Percebi que o meu conhecimento e desespero que o meu poder e fraqueza, que a minha autoridade e servidão, funcionavam da mesma maneira com o saber e com o ser. Passei por traumas amorosos que me fizeram perder a crença no casamento capitalista, no matrimônio católico mas não na união espiritual. Da mesma maneira, as decepções filosóficas me fizeram desacreditar da religião proibitiva, da filosofia histórica, da ciência descrente mas não do conhecimento transcendente. Por fim, hoje resta-me o suicídio; mas eu explico, isto não significa morrer ou me fazer ou deixar morrer. E sim, não lutar a favor do capitalismo, da filosofia, da religião, do matrimônio, tampouco contra. Evidentemente quem não reage à nada está morto, não? Pois eu não reajo à mais nada espontaneamente, de onde se conclui que eu me suicidei. Adeus mundo de ilusões: o mundo onde a morte da princeza Diana foi mais importante do que o massacre de milhões, um mundo de nobreza e miséria . O mundo em que o caso de um presidente com uma estagiária foi mascarado com uma guerra . Um mundo em que um país sujeita todos os outros países do mundo, enfim um mundo todo dividido em países. Um mundo de truques, blefes, ilusões e roubos, de usurpações, violações,tortura estupro e morte. De falsos messias em tubos catódicos de melodias e imagens veiculadas para vender necessidades de vender mais à milhões e bilhões de famintos por coisa nenhuma. De histerismo e fúria mimetizada, de realidade ditada pelo poder que domina a mídia, de genocídios ocultos por escândalos e de escândalos ocultos por genocídios; de censura invisível; de libertinagem visível; de monstros necrófilos disputando o poder para saciar a fome de sexo nu e cru, fome de comida, fome de poder, fome de dor, fome de fome.
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