Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência
A vovó dos suspiros


Era uma noite outonal no terminal central de ônibus municipal. E lá estava ela, segurando um cesto de vime envernizado com uma proteção na alça para não machucar os braços delicados curtidos pelos anos. Ela vestia um vestidinho roxo com motivos florais, calçava sandálias que deixavam à mostra pequenos pezinhos com unhas estragadas e usava um lenço escuro na cabeça para que os seus poucos cabelos esbranquiçados não caíssem sobre o delicado produto artesanal que ela vendia; suspiros em saquinhos plásticos transparentes ornados com fitinhas coloridas. Eu olhei bem para aquela senhora, uma velhinha de mais de oitenta anos segurando aquele cesto gigantesco e a examinei; ela tinha uma corcova enorme, era corcunda, e eu não podia saber se era um resultado natural da idade ou o peso do que carregara ao longo dos anos que gerara a deformidade. Cada saquinho daqueles custava o mesmo do que uma viagem nos sujos sucateados e decadentes ônibus municipais , dinheiro empregado sabe lá de que maneira por sabe Deus quem e com que finalidade...
Eu olhei bem para o seu rosto por um instante e as barreiras de sexo, idade e individualidade foram por terra e pude me ver com oitenta e poucos anos e me sentir num terminal de ônibus quase à meia-noite vendendo suspiros.
Uma moça deve ter pensado ou sentido o mesmo que eu porque perguntou o preço das iguarias, mas não houve tempo, nem para ela nem para mim fazermos ou dizermos mais nada: o sombrio ônibus chegou e nós embarcamos observados pelos olhos tristes da velhinha que perdeu a chance de vender os ultimos suspiros do longo dia de trabalho...


Aquela senhora não apenas vendia os suspiros: ela os gerava... bastava olhá-la.
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