Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência
Sobre o Copan*(do blog Morfina)


Os caminhos parecem tão tortuosos quanto o espiral de um caderno velho e vagabundo. O nível caótico do conhecimento alheio me assusta cada vez mais e tenho a impressão de que as águas do rio já foram deterioradas. Só nos restam as margens. Sejamos marginais, então.


Talvez a história esteja se tornando repetitiva, mas a verdade é que eu preciso respirar a poesia vagabunda para sobreviver. Preciso de corredores escuros e folhas de papel almaço para propagar devaneios. Filosofia barata, linhas mal escritas e velhinhos sambistas. Quem não precisa de um apartamento minúsculo que tenha o sofrimento impregnado na tinta das paredes? Quem não precisa de garrafas de vinho barato para instigar a criatividade? Quem não precisa de amores fracassados para construir a inspiração? A carne é crua, a lua é pura e os sonhos são sempre em vão.


Quero o cigarro mais forte, a noite mais fria e a cortina mais leve, impotente em sua função de barrar o vento que entra pelas janelas. Que entrem os vendavais, a chuva e o saudosismo. Que entrem as canções já esquecidas, a voz do Chico e a sapiência de quem conhece a rua. Seja bem vindo ainda o conhecimento vasto das prostitutas, o brilho crasso dos travestis e as modas perdidas nas décadas já esquecidas. Viva os sapatos gastos, o violão cadenciado e as calças de tergal.


Artistas plásticos, músicos sem sucesso, escritores amontoados: todos eles se unem à podridão do centro velho. É como o teto da casa, a mãe de família. Não se considere uma pessoa de verdade enquanto não tens um amigo artista plástico - sem sucesso algum, que fique frisado. Mas só conte se o rapaz fora abandonado pela vida e se suas cicatrizes estiverem expostas em suas obras. Precisa ainda ter dom e tom para degustar destilados de quinta categoria e contar histórias sobre as esquinas. Não pode ter um centavo no bolso. Tem que saber rir das fotos que o Ministério da Saúde estampou nos maços de cigarro mesmo que elas não tenham a menor graça. Tem que ser completo: amigo-artista-plástico-fodido-viado-e-irônico. Principalmente irônico.


Cravado no centro - tanto da cidade quanto dos corações que pulsam nos bancos dos bares - o gigante estático plantado no asfalto quente define a mistura das falhas e acertos que resulta em substancial melodia. Tudo o que se encontra acima da habitual normalidade está escondido entre os elevadores da década de 50 e as pastilhas que revestem os demais edifícios antigos e poéticos. Esses sim são apaixonantes. Os blocos mais elitizados não cheiram a álcool e prostituição, sequer existem filósofos de botequim circulando entre as escadarias. Dizem que estão ordenando o inferno, destruindo a boemia. Morte aos tiranos.


Conhece o Copan? Quero morar lá. Quero beber vinho Caetê até cair e escrever poesias vagabundas em folhas rasgadas de papel. Quero pisar nos viados que dormem no corredor porque não têm forças para chegar até os apartamentos. Quero acordar de madrugada e subir a Consolação a pé, embreagada de vodka Natasha. Quero um Chevette Junior. Quero filosofar nos botecos da República. Quero publicar um livreto vagabundo com dizeres marginais.



* Este texto tem trechos de e-mail´s que foram enviados a alguns amigos na última semana e, além de uma ode à podridão que a gente tanto venera, é também uma homenagem àqueles que têm sensibilidade suficiente para notar a beleza oculta nas vigas de concreto. Kleber, aqui estamos nós.

Segunda-feira, Março 11, 2002 injetado por Vanessa Marques 2:40 PM
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