Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência

Queria escrever





Queria escrever


Queria escrever num instante de histeria, num rompante, queria escrever como se hoje fosse o último dia, queria escrever como o mar azul refletido nos olhos da menina loira sentada nas areias da praia , como um garoto perseguido por três outros e se escondendo num bosque, escrever sem rima e sem métrica, sem gramática ou temas, leve e solto como quem voa ou lê deitado num quarto penumbral iluminado por luz tênue de um pequeno abajur assentado sobre um criado - mudo desgastado ou escrever como e portanto quando e entretanto, em latim espanhol, esperanto, esperando sozinho um ônibus debaixo de chuva, como judeus num campo de concentração, sentado num café amarelado tomando um martini ao pôr do sol de uma sexta - feira da paixão como parentes de luto num cemitério aguardando a extrema-unção diante de um mausoléu como um cordeiro na boca de um leão, queria escrever sobre os quadris requebrando da moça que cruza o seu olhar com o meu e sorri numa rua movimentada num dia ensolarado dourado como quem dobra a esquina e não sabe o que vai encontrar, como uma lagarta saindo da crisálida metamorfoseada em borboleta multicolor deixando para trás o casulo de seda, como quem salta de um lado a outro um abismo olhando para baixo , como um carro esporte vermelho à toda velocidade numa curva na estrada antes de se encontrar com um caminhão, queria escrever como uma adolescente voltando sozinha do colégio à noite e seguida por três homens na rua escura da solidão, como uma prostituta sob um semáforo vermelho sendo abordada por um homem que joga ácido em seu rosto, como um biplano amarelo sobrevoando uma planície florida de margaridas onde passeia uma camponesa vestida de branco, como um mendigo velho barbudo e esfarrapado bebendo cachaça num banco da praça, queria escrever como uma festa de debutante com danças jovens e doces damas, como um antigo álbum de fotografias aberto sobre a mesinha de centro sendo visto pela família reunida, como um mafioso cortando o dedo mínimo e oferecendo ao papa na mesa xadrez de vermelho e branco numa cantina no bairro italiano, queria escrever em mim, fechando o meu corpo tal e qual tatuagem literária como se eu fosse um livro e depois me ler e reler sem parar me parafraseando todo, queria escrever no chão e nas paredes de casa com lápis de cor como uma criança e contar as minhas efemérides, queria escrever como as rugas no rosto de um idoso solitário num asilo vivendo das lembranças de um passado que não volta mais como Cristo olhando da prisão para Pedro enquanto o galo canta três vezes, como uma jovem bruxa ruiva queimando na pira da inquisição, como um herbanário arrancando uma mandrágora na floresta para vende-la em sua banca no mercado, queria escrever como um escriba egípcio contando a história de Ramsés II traído por Moisés, queria escrever como um rabino enlouquecido rasgando o talmude e comendo as suas páginas(prove e verá que o senhor é doce), como uma traça comendo um livro raro numa grande biblioteca, queria escrever como um casal mergulhando sob águas translúcidas de um atol e se beijando em torno de águas-vivas e algas verdes , queria escrever como criminosos cavando um túnel sob o presídio, ou como um presidiário riscando as paredes para contar os dias no cárcere, como uma coruja pousada no muro de um cemitério, contra a lua à meia-noite do 31 de outubro , queria escrever como rastilho de pólvora que leva até um armazém repleto de munição e bum! como um lobo capturado numa armadilha roendo a pata para se libertar, como galos numa rinha na Nicarágua,como céticos agourando a procissão, como cegos pedindo esmolas com canecas de metal como doentes desenganados em macas no corredor de um hospital público, como um suicida escrevendo com sangue a última carta feita de pele humana , ou como um pintor pintando um quadro dele mesmo pintando um quadro,e fazer uma palavra descrever mil imagens, como uma cobra mamando no seio de uma mulher, como uma águia voando entre as nuvens vendo um coelho branco ao longe, como uma jovem cigana lendo a sorte num parque, como um açougueiro fatiando carnes ensangüentadas separando-as dos ossos, como um padre ouvindo a sua própria confissão, como um trem partindo durante uma nevasca e afastando namorados de olhos marejados e corações quebrados, como uma barca cruzando os canais de Veneza levando uma freira, como um monge tibetano entoando um mantra, como uma bailarina sem uma perna dançando sobre o palco, que é o mesmo que Deus escrevendo certo por linhas tortas. Queria escrever como um médium psicografando uma carta do além, como um tatuador, marcando a minha própria pele com palavras indeléveis, como um cirurgião fazendo uma incisão, como um dentista obturando um dente, como um escultor esculpindo, como um adolescente fazendo sexo, queria escrever... escrever como o vento escreve nas areias, como as águas escrevem nas rochas, como o incêndio escreve nas florestas como o rastro ondulado de uma cobra, como pegadas de um tigre... como Deus escreveu a criação no caos, como o sol escreve os seus fachos pela janela na poeira suspensa no quarto, como bolhas de sabão flutuando, como as nuvens escrevem no céu azul. Queria escrever com letras prateadas em folhas negras como estrelas num céu noturno, ou com a minha língua no céu da tua boca, com o meu olhar no seu olhar e com letras digitais na tela do celular, queria escrever sobre o conde de Saint Germain tirando as cartas para Giordano Bruno num bistrô na Baviera queria escrever outrora no outono antes que seja tarde e a estação passe, queria escrever com sementes de árvores no chão e plantar uma floresta poética, esboçar a minha autobiografia com sêmen no útero de uma menina e ver nascer o meu romance, um filho; queria escrever um manuscrito com as minhas garatujas ininteligíveis e desafiar um pesquisador a decifrar garranchos ilegíveis queria escrever um livro de capítulos dispersos na cidade, um capítulo de imprecações sobre o presidente em paredes de banheiros públicos, um segundo capítulo de mensagens cifradas de amor com corretor liquido em pontos de ônibus, um terceiro capítulo em grafites rúnicos no alto de prédios, e um longo capítulo no coração de uma bela mulher.

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