Areias ao Vento
Sobretudo sobre o nada da existência arte,filosofia,e ciência; sobre tudo e sobre nada:do oculto e da sapiência
Sobre labirintos

Em algum lugar do tempo, em algum ponto do passado estou com sete anos desenhando labirintos com esferográficas em folhas de caderno em branco ao invés de estudar, e a minha avó e o meu tio me criticam por isto. Bem, talvez eles estivessem certos pois ainda tenho um labirinto diante de mim, tantos anos depois, entretanto agora tenho uma folha azul e uma caneta dourada . Eu me lembro de, na quinta série, estar cercado por um grupo de colegas afoitos me esperando terminar o último labirinto ou pedindo-me para desenhar um na contracapa dos seus cadernos; eu próprio tinha labirintos nas capas dos meus cadernos e os amigos descendentes de japoneses, exímios desenhistas, costumavam elogiá-los não pela qualidade do meu traço, mas pelo surpreendente resultado final após mais de vinte horas de trabalho. Eu não quero afirmar que o meu gosto por labirintos venha de vidas passadas, mas é verdade que ninguém na minha família é afeito a charadas e desenhos enigmáticos como os labirintos. Posteriormente, na busca por mim mesmo, quis saber mais à respeito da origem dos labirintos.
Na mitologia grega, o labirinto era um palácio de planta complexa, construído por Dédalo para o rei Minos, em Cnossos, com o objetivo de aprisionar nele o Minotauro. Segundo a mitologia grega, em seus primeiros anos a vida o arquiteto Dédalo (que significa, em grego, engenhoso, hábil ou criador) foi descobridor de materiais, formas, do machado, do volume, do nível e do espaço. Aflito e invejando o talento do seu aprendiz e sobrinho Talo, matou-o e fugiu para Creta, na corte do rei Minos, onde uniu-se à escrava Naucrates e com ela teve um filho, Ícaro. Minos, o rei, lhe encomendou a criação do labirinto de Cnossos, para aprisionar o terror feroz do Minotauro. Mais tarde, o arquiteto e seu filho foram aprisionados no labirinto. Dédalo porém vale-se da sua brilhante engenharia e constrói para si e para o filho asas de penas,coladas com cera, para fugirem do labirinto. O pai inventor adverte ao filho desvairado que não voe muito perto do Sol nem do mar. Ícaro, desvairado com a beleza do céu, sobe muito alto e o Sol derrete a cera de suas asas, fazendo-o cair nas águas do mar Egeu. A ilha aonde seu corpo foi levado pelas ondas recebeu nome de Icária.Dédalo e Ícaro,pai e filho respectivamente simbolizam o espírito artístico e o desconhecimento do homem quanto a seus limites. O mito de Dédalo ilustra a busca de liberdade da arte e da importância de se estabelecer limites para os seus impulsos, e a moral da história é que o inventor não deve confiar demasiadamente na sua tecnologia pois ela pode se voltar contra ele, prejudicando justamente aquilo que ele pretendia salvar com a sua inveção; e os usuários da tecnologia não devem confiar em demasia nela para alçar os seus vôos, pois a queda pode ser terrível. Pense nisto quando ligar o seu computador achando que ele por si só o torna mais inteligente ou que lhe abre o mundo. Alcear vôos com o sentido de evoluir, aprimorar-se fugindo do labirinto de limitações e perigos que nos prende, é sinônimo de alcandorar-se, elevar-se, sublimar-se, e não subir às alturas irresponsavelmente para depois sofrer a queda. Assim, Teseu, ajudado por Ariadne, com o seu fio e amor que o guiou, conseguiu encontrar a saída do labirinto e matar o monstruoso minotauro. Faça o mesmo! Quanto a mim, continuo perdido num labirinto de mais de sessenta páginas de uma carta intitulada labirinto escrita para uma amiga que conheci no labirinto de ruas que é São Paulo. Segue abaixo um fragmento dela e uma citação nela contida.



O LABIRINTO

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto
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